domingo, 15 de fevereiro de 2026

FANATISMO E EDUCAÇÃO DO ESPÍRITO
DA PAIXÃO DESORDENADA AO ZELO PELO BEM
- A Era do Espírito -

Introdução

Em nossa sociedade contemporânea, marcada pela intensa exposição midiática e pela cultura de massas, observa-se com frequência o comportamento fanático em torno de times esportivos, artistas e figuras públicas. Estádios lotados, redes sociais inflamadas e debates acalorados revelam como essa adesão pode ultrapassar os limites da simples admiração.

Como compreender, à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, a diferença entre o fanático e o apreciador equilibrado? E mais: pode o fervor apaixonado ser educado e convertido em força útil ao bem comum?

Este estudo propõe analisar o fenômeno sob dois aspectos: primeiro, como expressão das paixões ainda dominantes; segundo, como energia moral passível de transformação pela educação do Espírito.

1. Fanatismo e perda da autonomia moral

A psicologia contemporânea identifica no fanatismo uma forma de projeção da identidade. O indivíduo, sentindo-se vazio ou inseguro, funde-se simbolicamente ao objeto admirado: “eu sou o meu time”, “eu sou o meu ídolo”.

Sob a ótica espírita, essa fusão revela apego excessivo às sensações exteriores. Em O Livro dos Espíritos, ensina-se que as paixões são forças naturais que podem conduzir tanto ao progresso quanto à queda, dependendo do uso que delas se faça (questão 908). Quando desgovernadas, tornam-se instrumentos de perturbação.

O fanático reage de modo visceral. Uma derrota esportiva ou uma crítica ao artista é sentida como agressão pessoal. A razão cede lugar ao impulso. Trata-se do predomínio da natureza instintiva sobre a vontade esclarecida.

Já o apreciador equilibrado mantém discernimento. Ele desfruta do esporte ou da arte como lazer e cultura, sem comprometer sua paz íntima ou seus deveres morais. Sua alegria não depende da vitória alheia; é fruto de equilíbrio interior.

2. Idolatria moderna e estagnação espiritual

A Doutrina Espírita ensina que a verdadeira adoração é a do coração e do sentimento elevado (questão 653 de O Livro dos Espíritos). Quando o Espírito transfere esse impulso religioso para objetos transitórios, cria-se uma forma moderna de idolatria.

O fanatismo reproduz elementos quase religiosos: templos (estádios), rituais (cânticos, uniformes), dogmas (“meu time nunca erra”), e até adversários vistos como inimigos. Contudo, diferentemente da religião moral, essa devoção não exige transformação íntima — apenas fidelidade emocional.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIX, lemos que “fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão”. O fanatismo, ao contrário, recusa análise crítica. Sustenta-se pela emoção exacerbada, não pelo discernimento.

Quando essa “fé” é contrariada, surgem reações violentas. E é justamente aí que se revela o distanciamento entre o discurso de paz e a realidade interior. A violência é o sintoma de que o Espírito ainda não educou suas inclinações.

3. Fanatismo como fuga da transformação íntima

Pode-se considerar o fanatismo uma fuga do dever de aperfeiçoamento moral?

A Doutrina Espírita ensina que o progresso real consiste em vencer a si mesmo. O exame de consciência recomendado por Santo Agostinho (questão 919 de O Livro dos Espíritos) exige coragem para enfrentar as próprias imperfeições.

O fanatismo, porém, desloca o foco. Em vez de trabalhar suas sombras, o indivíduo investe energia na defesa de causas exteriores. Vive vitórias por procuração. Se o ídolo triunfa, ele sente que triunfou — sem haver modificado um único defeito moral.

Trata-se de mecanismo de compensação. A emoção intensa funciona como anestésico para o vazio interior. Enquanto discute e se exalta, evita o silêncio necessário à reflexão.

4. A educação do Espírito segundo a Codificação

Contudo, a Doutrina Espírita não propõe a extinção das paixões, mas sua educação.

Na questão 908 de O Livro dos Espíitos, aprendemos que as paixões são forças que podem servir ao bem quando dirigidas pela razão. O problema não está na intensidade do sentimento, mas na ausência de governo moral.

Em diversos artigos da Revista Espírita, Kardec demonstra que o progresso do Espírito consiste na substituição gradual dos impulsos inferiores pela vontade esclarecida. A energia permanece; muda-se a direção.

O fervor fanático é, portanto, energia moral em estado bruto. O Espírito possui capacidade de entusiasmo, dedicação e constância — qualidades valiosas quando bem orientadas.

5. A contribuição das obras complementares

As obras complementares aprofundam esse mecanismo de transformação.

Em No Mundo Maior, pelo Espírito André Luiz, descreve-se o funcionamento das emoções e a necessidade de educar os impulsos instintivos, conduzindo-os aos centros superiores da consciência.

Já em Pensamento e Vida, o Espírito Emmanuel esclarece que o pensamento é força criadora. O fanático concentra sua mente em objeto único e transitório; o Espírito educado aprende a direcionar essa mesma força a ideais superiores.

A transformação ocorre quando:

  • O entusiasmo deixa de ser paixão exclusivista e torna-se zelo pelo bem comum.
  • A dedicação ao grupo restrito amplia-se em fraternidade universal.
  • A energia do conflito converte-se em trabalho construtivo.

6. Da paixão ao serviço

O indivíduo antes dominado pelo fanatismo pode tornar-se trabalhador dedicado nas causas nobres. A capacidade de mobilização, antes empregada em disputas efêmeras, converte-se em perseverança no estudo, na assistência social e na prática da caridade.

O que era reação impulsiva torna-se ação consciente.

Podemos sintetizar essa transição:

Fanatismo

Educação do Espírito

Dependência emocional de resultados externos

- Autonomia moral

Reação violenta diante da contrariedade

- Serenidade e discernimento

Apego exclusivista

- Universalização do afeto

Energia dispersa em conflitos

- Energia aplicada ao bem comum

Conclusão

O fanático não é um Espírito incapaz; é um Espírito mal orientado. Possui vigor, entusiasmo e capacidade de entrega — qualidades que, sob disciplina moral, tornam-se instrumentos de progresso.

A educação espírita ensina que a verdadeira grandeza não está na exaltação apaixonada, mas na transformação íntima. A paixão desordenada pode incendiar conflitos; a paixão educada ilumina caminhos.

O desafio não é extinguir o fogo do coração, mas direcioná-lo.
Quando o fervor deixa de alimentar o ego e passa a sustentar o serviço ao próximo, o Espírito transforma impulso em virtude — e a energia que antes dividia passa a unir.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • Revista Espírita.
  • No Mundo Maior. Espírito André Luiz, psicografia F. C. Xavier.
  • Pensamento e Vida. Espírito Emmanuel, psicografia F. C. Xavier.


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