ANALISANDO AS TRADUÇÕES
DE GUILLON RIBEIRO (FEB) E JOSÉ HERCULANO PIRES.
Introdução
Entre os estudiosos da
Doutrina Espírita, surge frequentemente uma dúvida aparentemente simples, mas
historicamente relevante: afinal, quantas questões possui O Livro dos
Espíritos? 1018 ou 1019?
A resposta correta é:
1019 questões.
A confusão decorre de um
lapso tipográfico ocorrido na segunda edição francesa de 1860 — edição ampliada
e considerada definitiva por Allan Kardec. Esse detalhe, aparentemente técnico,
gerou diferenças metodológicas entre traduções posteriores, especialmente no
Brasil, onde duas abordagens principais se consolidaram.
Examinemos o assunto à
luz da Codificação e do método espírita.
O Erro
Histórico na Edição de 1860
A primeira edição de O
Livro dos Espíritos, publicada em 1857, continha 501 questões. Em 1860, Kardec
apresentou a edição ampliada, reorganizada em quatro partes, totalizando o
conjunto de questões que conhecemos hoje.
Contudo, nessa edição
definitiva ocorreu um salto na numeração: após a questão 1010, passou-se
diretamente à 1012. O número 1011 foi omitido na sequência gráfica, embora o
texto correspondente estivesse presente.
Não houve supressão de
conteúdo doutrinário. O que ocorreu foi apenas um erro de numeração
tipográfica.
Se contarmos todas as
perguntas principais, chegamos a 1019. Considerando ainda as subquestões (como
822-a, 1012-a etc.), o total de interrogações ultrapassa 1.200.
Duas
Metodologias de Tradução no Brasil
Ao longo do século XX,
surgiram diferentes traduções brasileiras. Entre elas destacam-se:
- A
tradução de Guillon Ribeiro, publicada pela Federação Espírita Brasileira
(FEB).
- A
tradução de José Herculano Pires.
Ambas preservam
integralmente o conteúdo doutrinário. A divergência está apenas na forma de
tratar o erro histórico de numeração.
1.
Método tradicional (FEB – Guillon Ribeiro)
Essa abordagem manteve
fielmente o salto original da edição francesa. Assim:
- A
numeração passa da 1010 para a 1012.
- O
livro termina numericamente em 1018.
- Em
notas explicativas, esclarece-se a ausência do número 1011.
Aqui, a prioridade foi
preservar até mesmo o detalhe gráfico histórico, acompanhando rigorosamente a
edição francesa de 1860.
2.
Método de José Herculano Pires
Já José Herculano Pires
adotou outra solução: corrigiu silenciosamente a sequência numérica.
Ele atribuiu o número
1011 à questão que estava sem numeração na edição francesa, reorganizando a
sequência lógica até o final, que passa a terminar em 1019.
O texto é o mesmo.
Nenhuma pergunta foi retirada ou acrescentada. O que muda é apenas a numeração
sequencial.
A
Situação da Questão 1011
Na edição traduzida por
Herculano Pires (43ª edição – 1984), a questão 1011 inicia com:
“Um lugar circunscrito
no Universo está destinado às penas e aos gozos dos Espíritos, segundo os seus
méritos?”
Nas edições que mantêm o
salto original, essa pergunta aparece numerada como 1012.
Portanto:
- O
conteúdo é idêntico.
- A
diferença é exclusivamente aritmética.
- A
divergência surge a partir da questão posterior à 1010.
Do ponto de vista
doutrinário, não há alteração de ensino, princípio ou interpretação.
Método
e Fidelidade Doutrinária
É importante lembrar que
o próprio Kardec, na introdução de A Gênese, afirma que o Espiritismo caminha
com o progresso e deve acompanhar a verdade demonstrada.
A diferença entre as
traduções não envolve alteração do pensamento dos Espíritos, mas apenas uma
decisão editorial:
- Manter
o erro tipográfico histórico.
- Ou
corrigir a sequência numérica para maior clareza lógica.
Ambas as posições são
defensáveis sob critérios distintos:
- A
primeira privilegia a fidelidade material ao documento histórico.
- A
segunda privilegia a coerência formal da numeração.
A Doutrina, porém, não
se apoia em números gráficos, mas na substância do ensino.
Unidade
de Conteúdo, Diversidade de Forma
Nos estudos publicados
na Revista Espírita, Kardec sempre enfatizou a necessidade de método, clareza e
controle universal dos ensinos dos Espíritos.
A divergência numérica
entre traduções não compromete:
- A
Lei de Progresso.
- A
Lei de Justiça.
- A
Lei de Causa e Efeito.
- A
estrutura filosófica da obra.
Trata-se apenas de
diferença de organização editorial.
Assim, ao participar de
grupos de estudo, convém verificar qual edição está sendo utilizada, para
evitar confusões na citação das questões a partir do ponto em que ocorre o
ajuste.
Considerações
Finais
A questão 1011 tornou-se
conhecida não por seu conteúdo, mas por um detalhe gráfico da história
editorial da obra.
Se considerarmos o
número real de perguntas, O Livro dos Espíritos possui 1019 questões
principais.
A diferença entre
terminar numericamente em 1018 ou 1019 não altera o ensino moral nem a
filosofia apresentada pelos Espíritos.
O essencial permanece
intacto: a obra estabelece, sob método rigoroso, os fundamentos da Doutrina
Espírita, organizando os ensinos espirituais de forma lógica e progressiva.
O estudo atento
demonstra que, acima das variações editoriais, prevalece a unidade do
pensamento espírita — construída não sobre detalhes tipográficos, mas sobre
princípios universais.
Referências
- Allan Kardec. O Livro
dos Espíritos.
- Allan Kardec. A Gênese.
- Allan Kardec. Revista Espírita (1858–1869).
- Traduções brasileiras de O Livro dos Espíritos por Guillon Ribeiro (FEB) e José Herculano Pires.
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