domingo, 15 de fevereiro de 2026

A NUMERAÇÃO DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS
E A QUESTÃO 1011
ESCLARECIMENTOS HISTÓRICOS E METODOLÓGICOS
- A Era do Espírito -

 

ANALISANDO AS TRADUÇÕES

DE GUILLON RIBEIRO (FEB) E JOSÉ HERCULANO PIRES.

Introdução

Entre os estudiosos da Doutrina Espírita, surge frequentemente uma dúvida aparentemente simples, mas historicamente relevante: afinal, quantas questões possui O Livro dos Espíritos? 1018 ou 1019?

A resposta correta é: 1019 questões.

A confusão decorre de um lapso tipográfico ocorrido na segunda edição francesa de 1860 — edição ampliada e considerada definitiva por Allan Kardec. Esse detalhe, aparentemente técnico, gerou diferenças metodológicas entre traduções posteriores, especialmente no Brasil, onde duas abordagens principais se consolidaram.

Examinemos o assunto à luz da Codificação e do método espírita.

O Erro Histórico na Edição de 1860

A primeira edição de O Livro dos Espíritos, publicada em 1857, continha 501 questões. Em 1860, Kardec apresentou a edição ampliada, reorganizada em quatro partes, totalizando o conjunto de questões que conhecemos hoje.

Contudo, nessa edição definitiva ocorreu um salto na numeração: após a questão 1010, passou-se diretamente à 1012. O número 1011 foi omitido na sequência gráfica, embora o texto correspondente estivesse presente.

Não houve supressão de conteúdo doutrinário. O que ocorreu foi apenas um erro de numeração tipográfica.

Se contarmos todas as perguntas principais, chegamos a 1019. Considerando ainda as subquestões (como 822-a, 1012-a etc.), o total de interrogações ultrapassa 1.200.

Duas Metodologias de Tradução no Brasil

Ao longo do século XX, surgiram diferentes traduções brasileiras. Entre elas destacam-se:

  • A tradução de Guillon Ribeiro, publicada pela Federação Espírita Brasileira (FEB).
  • A tradução de José Herculano Pires.

Ambas preservam integralmente o conteúdo doutrinário. A divergência está apenas na forma de tratar o erro histórico de numeração.

1. Método tradicional (FEB – Guillon Ribeiro)

Essa abordagem manteve fielmente o salto original da edição francesa. Assim:

  • A numeração passa da 1010 para a 1012.
  • O livro termina numericamente em 1018.
  • Em notas explicativas, esclarece-se a ausência do número 1011.

Aqui, a prioridade foi preservar até mesmo o detalhe gráfico histórico, acompanhando rigorosamente a edição francesa de 1860.

2. Método de José Herculano Pires

Já José Herculano Pires adotou outra solução: corrigiu silenciosamente a sequência numérica.

Ele atribuiu o número 1011 à questão que estava sem numeração na edição francesa, reorganizando a sequência lógica até o final, que passa a terminar em 1019.

O texto é o mesmo. Nenhuma pergunta foi retirada ou acrescentada. O que muda é apenas a numeração sequencial.

A Situação da Questão 1011

Na edição traduzida por Herculano Pires (43ª edição – 1984), a questão 1011 inicia com:

“Um lugar circunscrito no Universo está destinado às penas e aos gozos dos Espíritos, segundo os seus méritos?”

Nas edições que mantêm o salto original, essa pergunta aparece numerada como 1012.

Portanto:

  • O conteúdo é idêntico.
  • A diferença é exclusivamente aritmética.
  • A divergência surge a partir da questão posterior à 1010.

Do ponto de vista doutrinário, não há alteração de ensino, princípio ou interpretação.

Método e Fidelidade Doutrinária

É importante lembrar que o próprio Kardec, na introdução de A Gênese, afirma que o Espiritismo caminha com o progresso e deve acompanhar a verdade demonstrada.

A diferença entre as traduções não envolve alteração do pensamento dos Espíritos, mas apenas uma decisão editorial:

  • Manter o erro tipográfico histórico.
  • Ou corrigir a sequência numérica para maior clareza lógica.

Ambas as posições são defensáveis sob critérios distintos:

  • A primeira privilegia a fidelidade material ao documento histórico.
  • A segunda privilegia a coerência formal da numeração.

A Doutrina, porém, não se apoia em números gráficos, mas na substância do ensino.

Unidade de Conteúdo, Diversidade de Forma

Nos estudos publicados na Revista Espírita, Kardec sempre enfatizou a necessidade de método, clareza e controle universal dos ensinos dos Espíritos.

A divergência numérica entre traduções não compromete:

  • A Lei de Progresso.
  • A Lei de Justiça.
  • A Lei de Causa e Efeito.
  • A estrutura filosófica da obra.

Trata-se apenas de diferença de organização editorial.

Assim, ao participar de grupos de estudo, convém verificar qual edição está sendo utilizada, para evitar confusões na citação das questões a partir do ponto em que ocorre o ajuste.

Considerações Finais

A questão 1011 tornou-se conhecida não por seu conteúdo, mas por um detalhe gráfico da história editorial da obra.

Se considerarmos o número real de perguntas, O Livro dos Espíritos possui 1019 questões principais.

A diferença entre terminar numericamente em 1018 ou 1019 não altera o ensino moral nem a filosofia apresentada pelos Espíritos.

O essencial permanece intacto: a obra estabelece, sob método rigoroso, os fundamentos da Doutrina Espírita, organizando os ensinos espirituais de forma lógica e progressiva.

O estudo atento demonstra que, acima das variações editoriais, prevalece a unidade do pensamento espírita — construída não sobre detalhes tipográficos, mas sobre princípios universais.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. A Gênese.
  • Allan Kardec. Revista Espírita (1858–1869).
  • Traduções brasileiras de O Livro dos Espíritos por Guillon Ribeiro (FEB) e José Herculano Pires.

 

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