Introdução
Uma conhecida
especialista em saúde mental, como a Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva, afirma que
as pessoas são mais reveladas por suas reações do que por suas ações. A ideia é
simples: ações costumam passar pelo crivo da reflexão e do “filtro social”;
reações, por sua vez, emergem quase instantaneamente, revelando conteúdos
emocionais mais profundos.
À luz da Doutrina
Espírita codificada por Allan Kardec, essa observação psicológica encontra
ressonância notável. A diferença entre ação deliberada e reação instintiva
aproxima-se da distinção entre o esforço consciente da vontade e as tendências
morais ainda não transformadas do Espírito.
Neste artigo,
analisaremos essa convergência entre psicologia contemporânea e Espiritismo,
examinando o papel do corpo físico como “véu” da alma, o significado das
reações sob pressão e o processo da transformação íntima como verdadeira
educação da vontade.
1.
Ações e reações: o que realmente revelam?
Na psicologia, ações são
comportamentos planejados. O indivíduo pensa, pondera, avalia consequências e,
então, decide. Já as reações surgem antes que o raciocínio lógico intervenha
plenamente. São respostas rápidas, frequentemente moldadas por experiências
passadas e padrões emocionais enraizados.
Exemplo clássico: alguém
pode agir com cortesia no convívio social, mas reagir com agressividade
imediata diante de uma crítica inesperada. A ação mostra a intenção; a reação
revela o limite moral ainda existente.
A Doutrina Espírita
ensina que o Espírito traz consigo tendências adquiridas ao longo de múltiplas
existências. Em O Livro dos Espíritos, aprendemos que a encarnação não
anula essas disposições; apenas as coloca sob o controle relativo da razão e da
vontade.
Assim, quando reagimos
impulsivamente com orgulho, irritação ou egoísmo, estamos diante de inclinações
ainda não superadas. A reação é o reflexo do que permanece ativo no íntimo do
ser.
2. O
corpo como “véu” da alma
Em O Livro dos
Espíritos, especialmente na questão 210, encontramos a explicação de que o
corpo funciona como um “véu” que oculta a alma. No estado espiritual, o
pensamento é transparente; não há como dissimular intenções ou sentimentos. O
perispírito reflete o estado moral do Espírito.
Na vida corporal, o
Espírito encontra-se temporariamente ligado ao corpo físico, que lhe serve de
instrumento de manifestação e, ao mesmo tempo, de envoltório. A matéria, por
sua natureza mais densa, constitui um véu que limita a expansão das faculdades espirituais,
não permitindo que os encarnados leiam reciprocamente os pensamentos. Essa
obscuridade relativa é providencial, pois torna possível a convivência, na
Terra, de Espíritos em diferentes graus de adiantamento moral e intelectual,
oferecendo a todos iguais oportunidades de prova e progresso.
Podemos, então, dizer
que o corpo é um “esconderijo”? Em parte, sim — mas não no sentido de fraude da
criação. Trata-se de mecanismo pedagógico. A matéria oferece ao Espírito a
privacidade necessária para trabalhar suas imperfeições sem a exposição imediata
de suas fragilidades morais.
Enquanto desencarnado, o
Espírito manifesta-se tal qual é. Encarnado, pode aparentar virtudes ainda não
consolidadas. Contudo, nas reações espontâneas, a essência reaparece.
3. A
verdade sob pressão
A psicologia observa que
o caráter se manifesta especialmente em situações de estresse. Sob pressão, o
discurso elaborado cede lugar à resposta instintiva.
Essa constatação está em
plena harmonia com o ensinamento espírita de que as provas da vida revelam o
grau real de adiantamento moral. Na coleção da Revista Espírita, Kardec analisa repetidamente como os
acontecimentos difíceis funcionam como instrumentos de aferição do progresso do
Espírito.
Em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, capítulo XVII, lemos que o verdadeiro adepto da Doutrina é reconhecido pela sua transformação
moral e pelo esforço sincero de domar suas más inclinações. Não basta agir
corretamente por conveniência; é necessário que a reação íntima esteja em
consonância com o bem.
Enquanto houver conflito
entre o que se faz externamente e o que se sente internamente, há trabalho a
realizar.
4. O
processo da transformação íntima
A Doutrina Espírita não
propõe mera repressão das reações inferiores, mas sua substituição gradual por
sentimentos superiores. Trata-se de processo educativo da vontade.
Podemos resumir esse
caminho em três etapas contínuas:
a) Autoexame consciente
Na
questão 919-a de O Livro dos Espíitos, Santo Agostinho recomenda o exame
diário de consciência. Ao final do dia, o indivíduo deve revisar suas ações e,
sobretudo, suas reações: onde se irritou? Onde foi orgulhoso? Onde faltou
caridade?
Esse
exercício desloca conteúdos do automatismo para a lucidez. O que era
inconsciente passa a ser observado.
b) Vigilância ativa
O
ensinamento “vigiai e orai”, comentado em O Evangelho Segundo o Espiritismo,
convida à atenção constante sobre pensamentos e impulsos. Entre o estímulo e a
resposta, é possível criar um intervalo de decisão.
No
início, a reação inferior surge; mas a vontade intervém e escolhe outra
conduta. Esse momento é decisivo: é o Espírito aprendendo a ser senhor de si
mesmo.
c) Substituição de hábitos
As
tendências inferiores são hábitos enraizados no perispírito. A repetição
consciente de atitudes nobres — paciência, indulgência, humildade — vai
gradualmente modificando essas “trilhas internas”.
No começo, a ação
amorosa pode ser esforço disciplinado. Com o tempo, transforma-se em reação
espontânea. Quando isso ocorre, a metamorfose moral está em curso.
5. Da
dualidade à unidade
Podemos visualizar três
estágios evolutivos:
- Espírito ainda imperfeito: reage com o mal e
tenta agir com o bem — vive em conflito constante.
- Espírito em transformação: reage mal, mas se
esforça para agir bem — vive em disciplina consciente.
- Espírito mais adiantado: reage e age com o
bem — vive em unidade moral.
Nesse último estágio, já
não há necessidade de “esconderijo”. A essência tornou-se coerente com a
aparência. A ação e a reação se harmonizam.
Conclusão
A psicologia
contemporânea, ao afirmar que as reações revelam a essência, descreve fenômeno
que a Doutrina Espírita explica em profundidade: as reações são manifestações
das tendências morais ainda não transformadas do Espírito.
O corpo físico não é
instrumento de fraude, mas de misericórdia. Ele oferece tempo, privacidade e
oportunidade para que o Espírito trabalhe suas imperfeições. Contudo, as
reações espontâneas denunciam o que ainda precisa ser educado.
A verdadeira transformação não consiste em parecer melhor, mas em tornar-se melhor.
Não se resume a controlar gestos exteriores, mas a purificar sentimentos
interiores.
Quando a vontade
disciplinada converte o impulso inferior em resposta consciente de amor,
inicia-se a verdadeira metamorfose espiritual.
E quando agir bem deixa
de ser esforço para tornar-se reação natural, então o Espírito já não necessita
ocultar-se atrás do véu da matéria — porque sua essência passou a ser luz.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
- Revista Espírita.
- Ana Beatriz Barbosa Silva. Obras e entrevistas sobre comportamento e saúde emocional.
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