Introdução
A lealdade figura entre
as virtudes morais mais elevadas do ser humano. Ela expressa fidelidade,
gratidão e coerência entre sentimento e ação, revelando maturidade espiritual e
respeito pelas relações construídas ao longo da vida. No entanto, a experiência
cotidiana demonstra que tal virtude ainda é frágil no comportamento humano. Com
frequência, benefícios recebidos são retribuídos com indiferença, esquecimento
ou mesmo traição.
À luz da Doutrina
Espírita codificada por Allan Kardec, e das reflexões constantes na Revista
Espírita (1858–1869), a deslealdade não deve ser analisada apenas como
falha social ou moral isolada, mas como expressão de um estágio evolutivo ainda
marcado pelo egoísmo e pela imperfeição do Espírito. Este artigo propõe uma
reflexão racional e doutrinária sobre a lealdade, suas ausências, e o papel do
perdão e da consciência diante das Leis Divinas.
A
lealdade como virtude em construção
A lealdade é uma virtude
que nasce do reconhecimento do bem recebido e se manifesta pela fidelidade aos
vínculos morais estabelecidos. Ela pressupõe gratidão, senso de justiça e
compromisso ético. Entretanto, conforme ensina a Doutrina Espírita, o Espírito
humano encontra-se em processo de aperfeiçoamento. Por isso, não surpreende que
a maioria das criaturas, em algum momento da existência, falhe nesse ideal.
Em O Livro dos
Espíritos, Kardec registra que o egoísmo é a fonte de quase todos os males
morais (questão 913). A deslealdade, nesse sentido, não surge ao acaso: ela
decorre da predominância dos interesses pessoais sobre o bem coletivo, da
vaidade sobre a humildade, e do orgulho sobre a fraternidade.
O
egoísmo como raiz da deslealdade
Aquele que age de forma
desleal, via de regra, não considera as consequências de seus atos sobre o
outro. Movido por interesses imediatos — materiais, emocionais ou simbólicos —,
prioriza seus desejos, ainda que isso implique ferir quem lhe ofereceu apoio,
confiança ou amizade.
A Revista Espírita
registra, em diversos artigos e comunicações, que o Espírito dominado pelo
egoísmo encontra-se enfermo moralmente. Não se trata de uma doença do corpo,
mas de um desequilíbrio da alma, fruto da ignorância das Leis Divinas e da
resistência à transformação moral. Essa compreensão não isenta o indivíduo da
responsabilidade por seus atos, mas convida à análise sem ódio e sem julgamento
precipitado.
Diante
da deslealdade: julgar ou compreender?
Quando somos alvo da
deslealdade, a reação instintiva costuma ser o ressentimento. No entanto, a
Doutrina Espírita propõe um caminho mais elevado: o da compreensão e do perdão.
Perdoar não significa negar a dor sofrida nem justificar o erro alheio, mas libertar-se
do vínculo mental que aprisiona o coração à mágoa.
O Cristo, modelo moral
da Humanidade, ensina a não resistir ao mal com o mal, a oferecer a outra face
e a pagar o mal com o bem. Esses ensinamentos, analisados à luz da razão
espírita, revelam profunda sabedoria psicológica e espiritual: quem conserva a serenidade
interior diante da ofensa preserva sua paz e avança moralmente.
O
valor espiritual do perdão e da prece
Quanto mais grave a
deslealdade, maior o mérito moral do perdão. Isso se torna ainda mais
desafiador quando a ofensa parte de alguém querido, com quem se partilharam
afetos e benefícios. Nesses momentos, a prece surge como recurso essencial. A
oração não altera as Leis Divinas, mas transforma o estado íntimo daquele que
ora, acalmando o coração e iluminando a consciência.
A Doutrina Espírita
ensina que cada Espírito responde por si diante de Deus. Assim, a questão deixa
de ser um conflito entre ofensor e ofendido, para se tornar um compromisso
individual com a própria consciência. Estar em paz consigo mesmo, diante das Leis
Morais, é sinal de dever cumprido.
Caridade,
desapego e consciência moral
Não contabilizar os
benefícios realizados é uma das expressões mais puras da verdadeira caridade.
Fazer o bem esperando reconhecimento ou retribuição ainda revela apego e
interesse pessoal. O bem genuíno é aquele praticado por amor ao bem, pela
alegria de servir e pelo desejo sincero de contribuir para a felicidade alheia.
Conforme ensinam as
obras espíritas, a caridade — compreendida como benevolência, indulgência e
perdão — é o critério seguro do progresso moral. Quando praticada com desapego,
ela liberta tanto quem recebe quanto quem oferece, fortalecendo a consciência e
aproximando o Espírito das Leis Divinas.
Considerações
finais
A lealdade, embora ainda
rara em sua plenitude, é uma virtude a ser cultivada com perseverança. A
deslealdade, por sua vez, deve ser compreendida como sinal de imaturidade
espiritual, não como justificativa para o ódio ou a vingança. À luz da Doutrina
Espírita, o convite é claro: transformar a dor em aprendizado, o ressentimento
em perdão e a experiência difícil em oportunidade de crescimento moral.
Fazer o bem,
simplesmente, sem esperar recompensa, é seguir o ensinamento do Cristo e
cooperar com o progresso espiritual da Humanidade.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- Momento Espírita. A lealdade ignorada. Disponível em: https://momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=1635&stat=0
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