Alguns guardam o domingo indo à igreja.
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um sabiá como cantor
E um pomar por santuário.
Alguns guardam o domingo em vestes brancas.
Mas eu só uso minhas asas
E ao invés de repicar dos sinos da igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável.
E o Seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final
Eu O encontro o tempo todo no quintal.
Emily
Dickinson
Introdução
Em um de seus poemas
mais conhecidos, a poetisa americana Emily Dickinson descreve o domingo não
como um dia restrito a sinos e vestes formais, mas como um encontro silencioso
com Deus no quintal de casa, tendo um pássaro por cantor e o pomar por santuário.
A imagem é simples, mas encerra uma questão profunda: haverá lugar específico
para adorar a Deus? Haverá forma, tempo ou ritual indispensável para essa
comunhão?
À luz da Doutrina
Espírita codificada por Allan Kardec, a resposta conduz-nos à essência da lei
de adoração, compreendida não como formalidade exterior, mas como atitude
interior do Espírito.
Deus:
Inteligência Suprema e Causa Primeira
Na questão inaugural de O Livro dos Espíritos, os Espíritos
Superiores definem Deus como “Inteligência
Suprema, Causa primeira de todas as coisas”. Essa definição, ao mesmo tempo
filosófica e racional, afasta a ideia de uma divindade antropomórfica e
materializada.
Se Deus não é matéria,
não possui forma, não ocupa espaço físico, é evidente que não pode ser
circunscrito a um templo, a uma geografia ou a uma vestimenta. A adoração,
portanto, não depende de localização, mas de elevação moral.
Jesus já ensinara que
Deus deve ser adorado “em espírito e
verdade”. A Doutrina Espírita retoma esse ensino sob método e análise
racional, demonstrando que a verdadeira adoração é um movimento íntimo da
consciência em direção ao Bem.
A Lei
de Adoração na Doutrina Espírita
Na terceira parte de O Livro dos Espíritos, que trata das
Leis Morais, encontra-se o capítulo dedicado à lei de adoração. Na questão 654,
Kardec pergunta:
“Deus dá preferência aos que O adoram deste ou
daquele modo?”
A resposta dos Espíritos
é clara e universal:
“Deus prefere os que O adoram verdadeiramente com o
coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal.”
Essa orientação elimina
qualquer exclusivismo religioso. Não é o rito que aproxima o Espírito de Deus,
mas a sinceridade aliada à prática do bem.
Na coleção da Revista Espírita, encontram-se diversos
estudos que reforçam essa compreensão, mostrando que o progresso espiritual
está vinculado à transformação moral, e não à multiplicação de cerimônias
exteriores. O culto mais agradável a Deus é aquele que se traduz em melhoria
íntima e em utilidade para o próximo.
Rituais
e Maturidade Espiritual
A humanidade, em sua
infância espiritual, necessitou de símbolos, templos, sacerdócios e ritos.
Essas formas tiveram — e ainda têm — papel educativo, disciplinador e
agregador. Contudo, à medida que o Espírito amadurece, compreende que o
essencial não reside na forma, mas no conteúdo moral do sentimento.
A Doutrina Espírita não
combate as manifestações exteriores de fé; apenas esclarece que elas não são
fins em si mesmas. Se auxiliam na elevação do pensamento, cumprem função útil.
Se, porém, substituem a vivência do bem, tornam-se insuficientes.
A verdadeira adoração é
permanente. Não se restringe ao domingo, nem a horários específicos. O Espírito
pode elevar-se a Deus no silêncio do quarto, no ambiente de trabalho, no
convívio familiar ou mesmo contemplando a natureza.
A
Natureza como Livro Aberto
Quando alguém contempla
um céu estrelado, um jardim em flor ou o canto de um pássaro ao amanhecer, e
sente gratidão pela vida, está exercendo uma forma legítima de adoração. A
Criação é testemunho da Sabedoria divina.
Na perspectiva espírita,
o Universo é expressão das leis de Deus. Admirar a harmonia dessas leis,
reconhecer-se parte da obra e comprometer-se a respeitá-la é também uma forma
de culto.
Em tempos atuais,
marcados por crises ambientais, conflitos sociais e desafios éticos, adorar a
Deus implica igualmente respeitar Suas leis naturais. A responsabilidade
ecológica, a solidariedade social e o compromisso com a justiça são expressões
concretas de fé raciocinada.
A
Consciência como Santuário
A Doutrina Espírita
ensina que a lei de Deus está inscrita na consciência (questão 621 de O Livro dos Espíritos). Assim, o
verdadeiro templo é interior.
Quando o pensamento se
eleva, quando o coração cultiva a caridade, quando a vontade se inclina ao
dever, o Espírito entra em sintonia com a Causa Primeira. A prece sincera,
ainda que silenciosa, estabelece comunhão imediata.
Não é a posição do corpo
que define a adoração, mas a disposição da alma. Não são as palavras elaboradas
que tocam o Alto, mas a intenção pura. Fazer o bem e evitar o mal — eis a
síntese do culto verdadeiro.
Adoração
e Felicidade
Adorar a Deus em
espírito e verdade não é apenas um dever moral; é caminho de felicidade. O
Espírito que aprende a viver em sintonia com o Bem experimenta serenidade
interior, mesmo diante das dificuldades.
Essa comunhão constante
transforma o cotidiano. O trabalho torna-se serviço; a família, escola de amor;
a natureza, livro de revelações; e a consciência, altar permanente.
Não se trata de abolir
templos, mas de ampliá-los. Onde houver um coração sincero, ali estará o
santuário. Onde houver prática do bem, ali estará o culto mais elevado.
Conclusão
A reflexão poética de
Emily Dickinson encontra eco na filosofia espírita: Deus não está distante,
aguardando homenagens formais. Ele se faz presente na consciência que escolhe o
bem, no pensamento que se eleva e na ação que constrói.
Adorar a Deus em Sua
essência é viver de acordo com Suas leis. É transformar a existência em
expressão contínua de gratidão, responsabilidade e amor.
Assim, mais importante
que “guardar” um dia específico é guardar, no íntimo, a fidelidade ao Bem. E
quem aprende essa lição descobre que o encontro com o Pai não está reservado ao
fim da jornada, mas acontece todos os dias, no templo vivo da própria consciência.
Referências
- O Livro dos Espíritos, Parte Terceira, cap. II, questões 621 e 654, por Allan Kardec
- Revista Espírita, estudos sobre as Leis Morais (1858–1869)
- Versos de Emily Dickinson, Complete Poems, Back Bay Books.
- Momento Espírita. “Deus em meu quintal”. Disponível em: momento.com.br.
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