segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

EDUCAÇÃO, PROGRESSO E RESPONSABILIDADE
UMA ANÁLISE ESPÍRITA DO ENSINO ATUAL
- A Era do Espírito -

Introdução

A educação sempre foi um dos pilares do progresso humano. Se, no século XIX, o ensino era privilégio de poucos, hoje a escolarização se tornou direito universal e dever do Estado. No Brasil, dados recentes do IBGE indicam que cerca de 87% das crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos estão matriculados na escola, resultado de um processo de expansão iniciado com mais intensidade na década de 1990.

Entretanto, o acesso ampliado não resolveu, por si só, o problema da qualidade. A adoção do sistema de progressão continuada, organizada por ciclos e baseada na lógica do “fluxo escolar”, buscou combater a evasão e a repetência. Mas a questão permanece: estamos promovendo verdadeiro aprendizado ou apenas garantindo permanência formal?

À luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, a educação não se restringe à instrução intelectual; ela é instrumento de aperfeiçoamento moral e de desenvolvimento integral do Espírito reencarnado. Assim, analisar o modelo educacional atual exige uma reflexão mais ampla sobre progresso, responsabilidade e formação do caráter.

A lógica do “fluxo” e a superação da repetência

O sistema organizado por ciclos substituiu a seriação rígida anual por períodos mais longos de aprendizagem. A ideia central é que a repetência, além de onerosa para o Estado, frequentemente produz desmotivação e abandono escolar.

Sob o ponto de vista pedagógico, a proposta não é destituída de fundamento. Reconhece-se que cada criança possui ritmo próprio de desenvolvimento. A inteligência não se manifesta de modo uniforme, e as diferenças individuais devem ser consideradas.

Entretanto, a Doutrina Espírita ensina que o progresso é lei natural (cf. O Livro dos Espíritos, questões 776 e seguintes). O avanço não é apenas cronológico; é real e efetivo. Permanecer em movimento sem assimilar o conteúdo essencial pode representar apenas deslocamento aparente, não verdadeiro crescimento.

Quando a progressão continuada se transforma, na prática, em promoção automática, corre-se o risco de criar o que muitos especialistas denominam “analfabetismo funcional diplomado”: o aluno transita pelas etapas escolares sem consolidar competências básicas. Nesse caso, o sistema preserva estatísticas, mas compromete a formação.

Escola dos anos 50 e escola contemporânea: exclusão e universalização

Comparar a escola da década de 1950 com a atual revela mudanças profundas.

Nos anos 50, o ensino era seletivo e restrito. A autoridade do professor era incontestável, a disciplina rígida e o método centrado na memorização. O rigor produzia sólida base para alguns, mas excluía muitos. A reprovação funcionava como filtro social.

Hoje, a escola é espaço de convivência plural, com metodologias participativas e acesso massificado. Recursos tecnológicos ampliaram as possibilidades didáticas. Contudo, surgiram novos desafios: indisciplina, fragilidade na base formativa e desigualdades estruturais persistentes.

À luz da lei de sociedade, ensinada pelos Espíritos, a ampliação do acesso constitui avanço moral da coletividade. A exclusão sistemática não se harmoniza com o ideal de fraternidade. Porém, a democratização precisa ser acompanhada de responsabilidade pedagógica, sob pena de transformar inclusão formal em precariedade real.

Cultura familiar e responsabilidade compartilhada

Um dos pontos mais sensíveis do debate é o preparo cultural das famílias para o modelo de progressão continuada.

Muitas famílias, com baixa escolaridade ou jornadas exaustivas de trabalho, delegam integralmente à escola a tarefa educativa. Em contextos onde a reprovação servia como mecanismo de pressão, a ausência dessa “ameaça” pode ser interpretada como relaxamento de exigência.

Contudo, a Doutrina Espírita ensina que a educação moral começa no lar. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, destaca-se o dever dos pais como orientadores das almas confiadas à sua guarda. A escola instrui; a família forma.

Se a progressão continuada exige autonomia e responsabilidade do estudante, essas virtudes precisam ser cultivadas desde cedo. A liberdade sem consciência conduz à dispersão; a liberdade com responsabilidade favorece o amadurecimento.

Pestalozzi, Piaget e a educação integral

As ideias de Johann Heinrich Pestalozzi e Jean Piaget não se tornaram obsoletas. Pelo contrário, permanecem fundamentos teóricos do ensino contemporâneo.

Pestalozzi defendia a educação da cabeça, da mão e do coração — integração entre intelecto, ação e sentimento. Piaget demonstrou que o conhecimento é construído progressivamente, conforme estágios de desenvolvimento cognitivo.

Esses princípios dialogam com a visão espírita do ser humano como Espírito imortal em processo evolutivo. A educação precisa considerar tanto a dimensão intelectual quanto a moral. O erro não deve ser estigmatizado, mas compreendido como etapa do aprendizado.

O problema não está nas teorias, mas na aplicação parcial e desestruturada. Turmas superlotadas, falta de formação continuada de professores e carência de suporte familiar dificultam a concretização desses ideais.

Uma possível mesclagem: estrutura com humanidade

A solução não parece residir nem no retorno ao rigor excludente do passado, nem na permissividade sem acompanhamento do presente. Uma mesclagem equilibrada pode oferecer caminho mais promissor.

Essa síntese incluiria:

  • Estrutura e limites claros, essenciais ao desenvolvimento do caráter.
  • Metodologias ativas e personalizadas, respeitando ritmos individuais.
  • Recuperação efetiva e acompanhamento contínuo, impedindo lacunas acumuladas.
  • Integração família-escola, compartilhando responsabilidades.

Sob a ótica espírita, tal equilíbrio corresponde à harmonia entre justiça e misericórdia. Justiça, ao exigir esforço e responsabilidade; misericórdia, ao reconhecer limitações e oferecer novas oportunidades.

A lei de progresso não admite estagnação, mas também não se fundamenta em punição cega. O Espírito aprende pelo exercício, pela experiência e pela orientação adequada.

Considerações Finais

A questão educacional transcende modelos administrativos. Trata-se de formar consciências. A escola é oficina de almas reencarnadas, cada qual trazendo experiências pretéritas, tendências e necessidades específicas.

Garantir acesso é avanço civilizatório. Assegurar aprendizado real é dever moral.

O sistema de fluxo pode ser instrumento válido quando aliado a acompanhamento sério, responsabilidade compartilhada e compromisso ético. Caso contrário, converte-se em estatística favorável, mas em formação incompleta.

À luz da Doutrina Espírita, educar é cooperar com a obra divina do aperfeiçoamento humano. Instrução sem moral pode produzir inteligência sem direção; moral sem instrução pode carecer de discernimento. A educação integral harmoniza ambas.

O desafio contemporâneo não é escolher entre passado e presente, mas integrar o melhor de cada época, guiados pelo princípio superior da fraternidade e pelo ideal de progresso real e consciente.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Dados educacionais recentes.
  • MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC). Indicadores de Fluxo Escolar e IDEB.

 

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