Introdução
A educação sempre foi um
dos pilares do progresso humano. Se, no século XIX, o ensino era privilégio de
poucos, hoje a escolarização se tornou direito universal e dever do Estado. No
Brasil, dados recentes do IBGE indicam que cerca de 87% das crianças e adolescentes
entre 6 e 17 anos estão matriculados na escola, resultado de um processo de
expansão iniciado com mais intensidade na década de 1990.
Entretanto, o acesso
ampliado não resolveu, por si só, o problema da qualidade. A adoção do sistema
de progressão continuada, organizada por ciclos e baseada na lógica do “fluxo
escolar”, buscou combater a evasão e a repetência. Mas a questão permanece: estamos
promovendo verdadeiro aprendizado ou apenas garantindo permanência formal?
À luz da Doutrina
Espírita, codificada por Allan Kardec, a educação não se restringe à instrução
intelectual; ela é instrumento de aperfeiçoamento moral e de desenvolvimento
integral do Espírito reencarnado. Assim, analisar o modelo educacional atual
exige uma reflexão mais ampla sobre progresso, responsabilidade e formação do
caráter.
A
lógica do “fluxo” e a superação da repetência
O sistema organizado por
ciclos substituiu a seriação rígida anual por períodos mais longos de
aprendizagem. A ideia central é que a repetência, além de onerosa para o
Estado, frequentemente produz desmotivação e abandono escolar.
Sob o ponto de vista
pedagógico, a proposta não é destituída de fundamento. Reconhece-se que cada
criança possui ritmo próprio de desenvolvimento. A inteligência não se
manifesta de modo uniforme, e as diferenças individuais devem ser consideradas.
Entretanto, a Doutrina
Espírita ensina que o progresso é lei natural (cf. O Livro dos Espíritos,
questões 776 e seguintes). O avanço não é apenas cronológico; é real e efetivo.
Permanecer em movimento sem assimilar o conteúdo essencial pode representar
apenas deslocamento aparente, não verdadeiro crescimento.
Quando a progressão
continuada se transforma, na prática, em promoção automática, corre-se o risco
de criar o que muitos especialistas denominam “analfabetismo funcional
diplomado”: o aluno transita pelas etapas escolares sem consolidar competências
básicas. Nesse caso, o sistema preserva estatísticas, mas compromete a
formação.
Escola
dos anos 50 e escola contemporânea: exclusão e universalização
Comparar a escola da
década de 1950 com a atual revela mudanças profundas.
Nos anos 50, o ensino
era seletivo e restrito. A autoridade do professor era incontestável, a
disciplina rígida e o método centrado na memorização. O rigor produzia sólida
base para alguns, mas excluía muitos. A reprovação funcionava como filtro
social.
Hoje, a escola é espaço
de convivência plural, com metodologias participativas e acesso massificado.
Recursos tecnológicos ampliaram as possibilidades didáticas. Contudo, surgiram
novos desafios: indisciplina, fragilidade na base formativa e desigualdades
estruturais persistentes.
À luz da lei de
sociedade, ensinada pelos Espíritos, a ampliação do acesso constitui avanço
moral da coletividade. A exclusão sistemática não se harmoniza com o ideal de
fraternidade. Porém, a democratização precisa ser acompanhada de
responsabilidade pedagógica, sob pena de transformar inclusão formal em
precariedade real.
Cultura
familiar e responsabilidade compartilhada
Um dos pontos mais
sensíveis do debate é o preparo cultural das famílias para o modelo de
progressão continuada.
Muitas famílias, com
baixa escolaridade ou jornadas exaustivas de trabalho, delegam integralmente à
escola a tarefa educativa. Em contextos onde a reprovação servia como mecanismo
de pressão, a ausência dessa “ameaça” pode ser interpretada como relaxamento de
exigência.
Contudo, a Doutrina
Espírita ensina que a educação moral começa no lar. Em O Evangelho segundo o
Espiritismo, destaca-se o dever dos pais como orientadores das almas
confiadas à sua guarda. A escola instrui; a família forma.
Se a progressão
continuada exige autonomia e responsabilidade do estudante, essas virtudes
precisam ser cultivadas desde cedo. A liberdade sem consciência conduz à
dispersão; a liberdade com responsabilidade favorece o amadurecimento.
Pestalozzi,
Piaget e a educação integral
As ideias de Johann
Heinrich Pestalozzi e Jean Piaget não se tornaram obsoletas. Pelo contrário,
permanecem fundamentos teóricos do ensino contemporâneo.
Pestalozzi defendia a
educação da cabeça, da mão e do coração — integração entre intelecto, ação e
sentimento. Piaget demonstrou que o conhecimento é construído progressivamente,
conforme estágios de desenvolvimento cognitivo.
Esses princípios
dialogam com a visão espírita do ser humano como Espírito imortal em processo
evolutivo. A educação precisa considerar tanto a dimensão intelectual quanto a
moral. O erro não deve ser estigmatizado, mas compreendido como etapa do
aprendizado.
O problema não está nas
teorias, mas na aplicação parcial e desestruturada. Turmas superlotadas, falta
de formação continuada de professores e carência de suporte familiar dificultam
a concretização desses ideais.
Uma
possível mesclagem: estrutura com humanidade
A solução não parece
residir nem no retorno ao rigor excludente do passado, nem na permissividade
sem acompanhamento do presente. Uma mesclagem equilibrada pode oferecer caminho
mais promissor.
Essa síntese incluiria:
- Estrutura e limites claros, essenciais ao
desenvolvimento do caráter.
- Metodologias ativas e personalizadas, respeitando
ritmos individuais.
- Recuperação efetiva e acompanhamento contínuo, impedindo lacunas
acumuladas.
- Integração família-escola, compartilhando
responsabilidades.
Sob a ótica espírita,
tal equilíbrio corresponde à harmonia entre justiça e misericórdia. Justiça, ao
exigir esforço e responsabilidade; misericórdia, ao reconhecer limitações e
oferecer novas oportunidades.
A lei de progresso não
admite estagnação, mas também não se fundamenta em punição cega. O Espírito
aprende pelo exercício, pela experiência e pela orientação adequada.
Considerações
Finais
A questão educacional
transcende modelos administrativos. Trata-se de formar consciências. A escola é
oficina de almas reencarnadas, cada qual trazendo experiências pretéritas,
tendências e necessidades específicas.
Garantir acesso é avanço
civilizatório. Assegurar aprendizado real é dever moral.
O sistema de fluxo pode
ser instrumento válido quando aliado a acompanhamento sério, responsabilidade
compartilhada e compromisso ético. Caso contrário, converte-se em estatística
favorável, mas em formação incompleta.
À luz da Doutrina
Espírita, educar é cooperar com a obra divina do aperfeiçoamento humano.
Instrução sem moral pode produzir inteligência sem direção; moral sem instrução
pode carecer de discernimento. A educação integral harmoniza ambas.
O desafio contemporâneo
não é escolher entre passado e presente, mas integrar o melhor de cada época,
guiados pelo princípio superior da fraternidade e pelo ideal de progresso real
e consciente.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Dados educacionais recentes.
- MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC). Indicadores de Fluxo Escolar e IDEB.
Nenhum comentário:
Postar um comentário