Introdução
Em diferentes épocas,
pais e mães recordam as próprias dificuldades na infância e adolescência:
trabalho precoce, privações materiais, sonhos adiados, responsabilidades
assumidas cedo demais. Movidos por sincero amor, prometem a si mesmos que seus
filhos não experimentarão os mesmos sofrimentos.
Entretanto, à luz da
Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, cabe-nos refletir: será que
eliminar toda dificuldade é, de fato, o melhor caminho educativo? Ou
estaríamos, inadvertidamente, impedindo que os Espíritos reencarnados sob nossa
guarda criem as “raízes profundas” de que necessitam para enfrentar as provas
da vida?
Amor
que protege ou amor que prepara?
Vivemos em um tempo de
abundância relativa de recursos materiais e tecnológicos. Muitas crianças e
jovens dispõem de acesso à internet, dispositivos eletrônicos, lazer facilitado
e múltiplas oportunidades educacionais. Ao mesmo tempo, crescem os índices de
ansiedade, insegurança emocional e dificuldade de lidar com frustrações.
Não se trata de condenar
o conforto, mas de analisar seus efeitos quando desacompanhado de educação
moral sólida.
Em O Livro dos
Espíritos, Kardec indaga qual é a missão dos pais. A resposta dos Espíritos
é clara: eles têm o dever de conduzir
seus filhos pelo caminho do bem, desenvolvendo-lhes as qualidades morais e
combatendo as más inclinações (questão 582). Educar, portanto, não é apenas
prover; é formar o caráter.
Quando evitamos que a
criança enfrente qualquer frustração, impedimos que exercite a paciência, a
perseverança e o autocontrole. Quando atendemos prontamente a todos os desejos,
enfraquecemos a capacidade de esperar e de valorizar conquistas.
O amor que apenas
protege pode gerar dependência. O amor que prepara forma Espíritos fortes.
A Lei
de Progresso e o valor das dificuldades
A Doutrina Espírita
ensina que todos estamos submetidos à Lei de Progresso. Em O Livro dos
Espíritos (questões 776 a 785), aprendemos que o progresso moral e
intelectual é inevitável, mas depende do esforço individual.
As dificuldades, longe
de serem punições arbitrárias, constituem instrumentos educativos. Na coleção
da Revista Espírita, Kardec analisa
repetidamente como as provas da vida funcionam como oportunidades de
aperfeiçoamento do Espírito.
A metáfora do médico que
não regava excessivamente as árvores jovens ilustra essa realidade: a ausência
de facilidades imediatas obrigava as raízes a se aprofundarem, garantindo
firmeza futura. Do mesmo modo, o Espírito reencarnado necessita exercitar suas
forças internas para consolidar virtudes.
Se retiramos toda
exigência, se resolvemos todos os conflitos, se evitamos qualquer esforço,
criamos “raízes superficiais”. Ao primeiro vento mais forte — uma frustração
amorosa, uma dificuldade profissional, uma perda material — o jovem pode
sentir-se incapaz de reagir.
Dizer
“não” também é educar
A pedagogia espírita não
se fundamenta na severidade rude, mas na autoridade moral equilibrada. Dizer
“não” com serenidade e coerência é ensinar limites — e limites são estruturas
de segurança.
Em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, Kardec recorda que a verdadeira caridade começa no
dever cumprido. O excesso de concessões, ainda que bem-intencionado, pode ser
forma de comodidade afetiva, evitando o desconforto momentâneo do conflito
educativo.
Confiar tarefas aos
filhos, mesmo quando não estritamente necessário, é treino de responsabilidade.
Incentivar que resolvam pequenos problemas por si mesmos é desenvolver
autonomia. Permitir que experimentem as consequências naturais de suas escolhas
é lição de causa e efeito — princípio central da justiça divina.
Educação
moral em tempos desafiadores
O mundo contemporâneo
apresenta desafios complexos: crises ambientais, instabilidades econômicas,
transformações tecnológicas rápidas, conflitos culturais. Preparar filhos para
esse cenário exige mais do que recursos financeiros; exige formação moral.
A Doutrina Espírita
esclarece que cada Espírito reencarna em meio compatível com suas necessidades
evolutivas. Assim, nossos filhos não são “folhas em branco”, mas Espíritos
milenares, trazendo tendências, conquistas e fragilidades.
Cabe aos pais colaborar
com a obra divina, ocupando as mãos dos jovens com trabalho digno e suas mentes
com valores elevados. A luz do Evangelho, compreendida sob a ótica racional
espírita, oferece base ética sólida: responsabilidade, solidariedade, respeito,
disciplina interior.
Ensinar a valorizar o
tempo é ensinar finitude da encarnação.
Ensinar a valorizar o dinheiro é ensinar responsabilidade no uso dos recursos.
Ensinar a valorizar a saúde é reconhecer o corpo como instrumento sagrado de
evolução.
Ensinar a valorizar a inteligência é lembrar que todo talento é compromisso.
Preparar
para a sociedade, não para a estufa
Criamos nossos filhos
para a convivência social, não para um ambiente artificialmente protegido. A
sociedade exige cooperação, resiliência, capacidade de diálogo e enfrentamento
de adversidades.
Como ensina a Doutrina
Espírita, o Espírito se fortalece nas experiências. Provas e expiações são
mecanismos da justiça divina para impulsionar o progresso. Se impedimos
qualquer esforço, interferimos no próprio processo educativo da reencarnação.
Educar é equilibrar
afeto e firmeza.
É proteger sem sufocar.
É orientar sem substituir.
É amar sem enfraquecer.
Assim como as árvores
que aprofundam suas raízes tornam-se firmes contra as tempestades, também os
filhos que aprendem a enfrentar dificuldades com apoio moral — mas sem
excessiva facilitação — desenvolvem caráter sólido.
Que saibamos, portanto, unir ternura e responsabilidade.
Que formemos não apenas crianças felizes no presente, mas Espíritos fortes para o futuro.
E que, à luz da Doutrina Espírita, compreendamos que a melhor herança não é a
ausência de lutas, mas a capacidade de vencê-las com dignidade.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
- Revista Espírita.
- Vereda Familiar, Espírito Thereza de Brito, psicografia de Raul Teixeira, ed. Fráter.
- Momento Espírita. Raízes profundas.
- Artigo publicado na revista Seleções Reader's Digest, abril de 1999.
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