domingo, 15 de fevereiro de 2026

RAÍZES PROFUNDAS E EDUCAÇÃO DO ESPÍRITO
PREPARANDO FILHOS PARA OS TEMPOS ATUAIS
- A Era do Espírito -

Introdução

Em diferentes épocas, pais e mães recordam as próprias dificuldades na infância e adolescência: trabalho precoce, privações materiais, sonhos adiados, responsabilidades assumidas cedo demais. Movidos por sincero amor, prometem a si mesmos que seus filhos não experimentarão os mesmos sofrimentos.

Entretanto, à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, cabe-nos refletir: será que eliminar toda dificuldade é, de fato, o melhor caminho educativo? Ou estaríamos, inadvertidamente, impedindo que os Espíritos reencarnados sob nossa guarda criem as “raízes profundas” de que necessitam para enfrentar as provas da vida?

Amor que protege ou amor que prepara?

Vivemos em um tempo de abundância relativa de recursos materiais e tecnológicos. Muitas crianças e jovens dispõem de acesso à internet, dispositivos eletrônicos, lazer facilitado e múltiplas oportunidades educacionais. Ao mesmo tempo, crescem os índices de ansiedade, insegurança emocional e dificuldade de lidar com frustrações.

Não se trata de condenar o conforto, mas de analisar seus efeitos quando desacompanhado de educação moral sólida.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec indaga qual é a missão dos pais. A resposta dos Espíritos é clara: eles têm o dever de conduzir seus filhos pelo caminho do bem, desenvolvendo-lhes as qualidades morais e combatendo as más inclinações (questão 582). Educar, portanto, não é apenas prover; é formar o caráter.

Quando evitamos que a criança enfrente qualquer frustração, impedimos que exercite a paciência, a perseverança e o autocontrole. Quando atendemos prontamente a todos os desejos, enfraquecemos a capacidade de esperar e de valorizar conquistas.

O amor que apenas protege pode gerar dependência. O amor que prepara forma Espíritos fortes.

A Lei de Progresso e o valor das dificuldades

A Doutrina Espírita ensina que todos estamos submetidos à Lei de Progresso. Em O Livro dos Espíritos (questões 776 a 785), aprendemos que o progresso moral e intelectual é inevitável, mas depende do esforço individual.

As dificuldades, longe de serem punições arbitrárias, constituem instrumentos educativos. Na coleção da Revista Espírita, Kardec analisa repetidamente como as provas da vida funcionam como oportunidades de aperfeiçoamento do Espírito.

A metáfora do médico que não regava excessivamente as árvores jovens ilustra essa realidade: a ausência de facilidades imediatas obrigava as raízes a se aprofundarem, garantindo firmeza futura. Do mesmo modo, o Espírito reencarnado necessita exercitar suas forças internas para consolidar virtudes.

Se retiramos toda exigência, se resolvemos todos os conflitos, se evitamos qualquer esforço, criamos “raízes superficiais”. Ao primeiro vento mais forte — uma frustração amorosa, uma dificuldade profissional, uma perda material — o jovem pode sentir-se incapaz de reagir.

Dizer “não” também é educar

A pedagogia espírita não se fundamenta na severidade rude, mas na autoridade moral equilibrada. Dizer “não” com serenidade e coerência é ensinar limites — e limites são estruturas de segurança.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec recorda que a verdadeira caridade começa no dever cumprido. O excesso de concessões, ainda que bem-intencionado, pode ser forma de comodidade afetiva, evitando o desconforto momentâneo do conflito educativo.

Confiar tarefas aos filhos, mesmo quando não estritamente necessário, é treino de responsabilidade. Incentivar que resolvam pequenos problemas por si mesmos é desenvolver autonomia. Permitir que experimentem as consequências naturais de suas escolhas é lição de causa e efeito — princípio central da justiça divina.

Educação moral em tempos desafiadores

O mundo contemporâneo apresenta desafios complexos: crises ambientais, instabilidades econômicas, transformações tecnológicas rápidas, conflitos culturais. Preparar filhos para esse cenário exige mais do que recursos financeiros; exige formação moral.

A Doutrina Espírita esclarece que cada Espírito reencarna em meio compatível com suas necessidades evolutivas. Assim, nossos filhos não são “folhas em branco”, mas Espíritos milenares, trazendo tendências, conquistas e fragilidades.

Cabe aos pais colaborar com a obra divina, ocupando as mãos dos jovens com trabalho digno e suas mentes com valores elevados. A luz do Evangelho, compreendida sob a ótica racional espírita, oferece base ética sólida: responsabilidade, solidariedade, respeito, disciplina interior.

Ensinar a valorizar o tempo é ensinar finitude da encarnação.
Ensinar a valorizar o dinheiro é ensinar responsabilidade no uso dos recursos.
Ensinar a valorizar a saúde é reconhecer o corpo como instrumento sagrado de evolução.
Ensinar a valorizar a inteligência é lembrar que todo talento é compromisso.

Preparar para a sociedade, não para a estufa

Criamos nossos filhos para a convivência social, não para um ambiente artificialmente protegido. A sociedade exige cooperação, resiliência, capacidade de diálogo e enfrentamento de adversidades.

Como ensina a Doutrina Espírita, o Espírito se fortalece nas experiências. Provas e expiações são mecanismos da justiça divina para impulsionar o progresso. Se impedimos qualquer esforço, interferimos no próprio processo educativo da reencarnação.

Educar é equilibrar afeto e firmeza.
É proteger sem sufocar.
É orientar sem substituir.
É amar sem enfraquecer.

Assim como as árvores que aprofundam suas raízes tornam-se firmes contra as tempestades, também os filhos que aprendem a enfrentar dificuldades com apoio moral — mas sem excessiva facilitação — desenvolvem caráter sólido.

Que saibamos, portanto, unir ternura e responsabilidade.

Que formemos não apenas crianças felizes no presente, mas Espíritos fortes para o futuro.

E que, à luz da Doutrina Espírita, compreendamos que a melhor herança não é a ausência de lutas, mas a capacidade de vencê-las com dignidade.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • Revista Espírita.
  • Vereda Familiar, Espírito Thereza de Brito, psicografia de Raul Teixeira, ed. Fráter.
  • Momento Espírita. Raízes profundas.
  • Artigo publicado na revista Seleções Reader's Digest, abril de 1999.

 

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