Introdução
Circulam
com frequência, nas redes sociais, textos que evocam com entusiasmo a infância
das décadas passadas: o uniforme comprado com esforço, o respeito rigoroso ao
horário escolar, o uso do “orelhão”, as pesquisas na biblioteca, os trabalhos
manuscritos em papel almaço, as brincadeiras de rua, o cheiro do mimeógrafo, a
merenda simples e saborosa, o canto do hino nacional antes das aulas.
Recorda-se também uma convivência aparentemente mais espontânea entre crianças
de diferentes origens sociais, sem a preocupação constante com rótulos ou
conflitos identitários.
Diante
dessa evocação, surge a pergunta: trata-se apenas de emoção saudosista ou há
fundamento psicológico e social nessa percepção de que “algo se perdeu”? À luz
dos estudos atuais do comportamento humano e da Doutrina Espírita, codificada
em O Livro dos Espíritos e desenvolvida na Revista Espírita, é
possível oferecer uma análise equilibrada, sem idealizações nem condenações
precipitadas.
1. A nostalgia sob o olhar da psicologia
A
psicologia contemporânea reconhece a nostalgia como um fenômeno legítimo da
memória afetiva. Pesquisas indicam que recordações da infância tendem a ser
filtradas pelo afeto, preservando experiências de vínculo, pertencimento e
segurança. Isso não significa que o passado fosse isento de problemas, mas que
o cérebro associa aquele período à formação da identidade e das primeiras
referências emocionais.
Além disso,
especialistas em desenvolvimento infantil destacam que gerações anteriores
vivenciaram maior exposição a frustrações moderadas: regras rígidas, conflitos
entre colegas, limites claros impostos por pais e professores. Esses elementos,
quando não acompanhados de violência, favoreciam a formação da resiliência —
capacidade de lidar com dificuldades sem desorganização psíquica.
Hoje, em
muitos contextos urbanos, observa-se o oposto: superproteção no mundo físico e
exposição intensa ao ambiente digital. A criança tem menos experiências
concretas de negociação social e mais estímulos imediatos por meio de telas. O
resultado, apontam estudos recentes, é aumento da ansiedade, dificuldade de
tolerar frustrações e menor autonomia emocional.
2. Estímulo sensorial e mundo digital
As memórias
evocadas — o cheiro do álcool do mimeógrafo, a terra molhada após a chuva, as
brincadeiras ao ar livre — remetem a experiências multissensoriais. A
neurociência demonstra que vivências corporais e sociais presenciais ativam
múltiplas áreas cerebrais, fortalecendo vínculos e memória afetiva.
O ambiente
digital, embora traga benefícios informacionais, oferece estímulos rápidos e
fragmentados. A interação virtual substitui parcialmente o contato físico e a
convivência espontânea. Dados recentes de organismos internacionais apontam
crescimento significativo de sintomas depressivos e ansiosos em adolescentes
nos últimos anos, especialmente após a popularização irrestrita dos
smartphones.
Não se
trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ela alterou
profundamente a forma como as novas gerações experimentam o mundo.
3. Hierarquia, disciplina e segurança psíquica
O texto
nostálgico recorda uma clara hierarquia: pais e professores exerciam autoridade
reconhecida. A sociologia contemporânea observa que, nas últimas décadas, houve
uma transição de modelos educativos baseados no dever para modelos centrados no
bem-estar imediato da criança.
Quando
equilibrada, essa mudança favorece o diálogo. Contudo, quando os limites
tornam-se instáveis ou excessivamente negociáveis, pode surgir insegurança. A
criança necessita de referências firmes para estruturar a própria liberdade. A
ausência de contornos claros não produz autonomia, mas ansiedade.
A Doutrina
Espírita ensina que a paternidade é missão (questão 582 de O Livro dos
Espíritos), e que educar é formar o caráter. Autoridade não se confunde com
autoritarismo; trata-se de orientação amorosa, não de imposição violenta.
4. Coesão social e identidade
O relato
também menciona que diferenças de cor, classe ou gênero não eram centrais nas
brincadeiras. A sociologia atual mostra que, no passado, muitas desigualdades
eram menos discutidas publicamente, o que não significa que inexistissem. Hoje,
há maior conscientização sobre diversidade e respeito, o que representa avanço
moral.
Entretanto,
a hiperidentificação por rótulos — intensificada pelas redes sociais — pode
fragmentar o convívio. A identidade passa a ser definida por pertencimentos
específicos, e não pela experiência comum. Esse fenômeno contribui para
segmentações que dificultam o diálogo.
5. Quando foi que tudo mudou?
Não houve
um dia exato de ruptura. A transformação foi gradual, acelerada por três
fatores principais:
- Urbanização e aumento da violência urbana, que reduziram a liberdade de brincar nas ruas.
- Expansão da tecnologia digital, que substituiu interações presenciais por virtuais.
- Mudança de paradigmas educativos, com transição de disciplina externa para ênfase no bem-estar
individual.
Sob o
prisma espírita, tais mudanças refletem o processo evolutivo da humanidade. Em A
Gênese, esclarece-se que os períodos de transição moral são marcados por
crises aparentes, nas quais valores antigos são questionados antes que novos se
consolidem.
6. Depressão e vazio existencial: a questão mais urgente
Entre os
desafios contemporâneos, destaca-se o crescimento dos transtornos depressivos,
especialmente entre jovens. A Organização Mundial da Saúde aponta aumento
significativo de quadros ansiosos e depressivos na última década.
À luz da
Doutrina Espírita, o sofrimento moral não se explica apenas por fatores
materiais. Quando o Espírito perde de vista o sentido da existência e reduz a
vida à dimensão imediata, instala-se o vazio existencial. A questão 799 de O
Livro dos Espíritos afirma que o progresso verdadeiro depende da destruição
do egoísmo. Sem finalidade moral, o conforto material não satisfaz.
Vivemos,
portanto, não apenas uma crise tecnológica ou pedagógica, mas uma crise de
significado.
7. O que realmente faz falta?
Não é
simplesmente a disciplina rígida nem apenas a liberdade irrestrita. O que fazia
diferença era o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade. A rua
ensinava convivência e resolução de conflitos; a família e a escola ofereciam
contorno moral.
Hoje,
muitas crianças estão protegidas do mundo físico, mas expostas sem filtro ao
mundo digital. A disciplina imposta pelo medo deve dar lugar à disciplina
construída pela consciência — conforme a lei inscrita na alma humana (questão
621).
Conclusão
A nostalgia
da infância passada não é mero sentimentalismo. Ela expressa a lembrança de
vínculos concretos, experiências sensoriais ricas e referências morais mais
definidas. Entretanto, idealizar o passado não resolve os desafios do presente.
A Doutrina
Espírita ensina que cada época traz provas compatíveis com o grau evolutivo da
humanidade. Se antes o desafio era superar a disciplina pelo medo, hoje é
aprender a autogovernar-se pela consciência. A tecnologia e as transformações
sociais são instrumentos; o progresso moral continua sendo tarefa do Espírito.
Não se
trata de voltar ao mimeógrafo ou abolir o smartphone, mas de restaurar o que
sempre foi essencial: responsabilidade, convivência fraterna e sentido
existencial. Sem isso, qualquer geração — antiga ou moderna — experimentará o
mesmo vazio sob formas diferentes.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Paris, 1857.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo. Paris, 1864.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Paris,
1868.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita
(1858–1869).
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