segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

SAUDADE DA INFÂNCIA OU SINAL DOS TEMPOS?
UMA ANÁLISE MORAL E PSICOLÓGICA
DA NOSTALGIA CONTEMPORÂNEA
- A Era do Espírito -

Introdução

Circulam com frequência, nas redes sociais, textos que evocam com entusiasmo a infância das décadas passadas: o uniforme comprado com esforço, o respeito rigoroso ao horário escolar, o uso do “orelhão”, as pesquisas na biblioteca, os trabalhos manuscritos em papel almaço, as brincadeiras de rua, o cheiro do mimeógrafo, a merenda simples e saborosa, o canto do hino nacional antes das aulas. Recorda-se também uma convivência aparentemente mais espontânea entre crianças de diferentes origens sociais, sem a preocupação constante com rótulos ou conflitos identitários.

Diante dessa evocação, surge a pergunta: trata-se apenas de emoção saudosista ou há fundamento psicológico e social nessa percepção de que “algo se perdeu”? À luz dos estudos atuais do comportamento humano e da Doutrina Espírita, codificada em O Livro dos Espíritos e desenvolvida na Revista Espírita, é possível oferecer uma análise equilibrada, sem idealizações nem condenações precipitadas.

1. A nostalgia sob o olhar da psicologia

A psicologia contemporânea reconhece a nostalgia como um fenômeno legítimo da memória afetiva. Pesquisas indicam que recordações da infância tendem a ser filtradas pelo afeto, preservando experiências de vínculo, pertencimento e segurança. Isso não significa que o passado fosse isento de problemas, mas que o cérebro associa aquele período à formação da identidade e das primeiras referências emocionais.

Além disso, especialistas em desenvolvimento infantil destacam que gerações anteriores vivenciaram maior exposição a frustrações moderadas: regras rígidas, conflitos entre colegas, limites claros impostos por pais e professores. Esses elementos, quando não acompanhados de violência, favoreciam a formação da resiliência — capacidade de lidar com dificuldades sem desorganização psíquica.

Hoje, em muitos contextos urbanos, observa-se o oposto: superproteção no mundo físico e exposição intensa ao ambiente digital. A criança tem menos experiências concretas de negociação social e mais estímulos imediatos por meio de telas. O resultado, apontam estudos recentes, é aumento da ansiedade, dificuldade de tolerar frustrações e menor autonomia emocional.

2. Estímulo sensorial e mundo digital

As memórias evocadas — o cheiro do álcool do mimeógrafo, a terra molhada após a chuva, as brincadeiras ao ar livre — remetem a experiências multissensoriais. A neurociência demonstra que vivências corporais e sociais presenciais ativam múltiplas áreas cerebrais, fortalecendo vínculos e memória afetiva.

O ambiente digital, embora traga benefícios informacionais, oferece estímulos rápidos e fragmentados. A interação virtual substitui parcialmente o contato físico e a convivência espontânea. Dados recentes de organismos internacionais apontam crescimento significativo de sintomas depressivos e ansiosos em adolescentes nos últimos anos, especialmente após a popularização irrestrita dos smartphones.

Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ela alterou profundamente a forma como as novas gerações experimentam o mundo.

3. Hierarquia, disciplina e segurança psíquica

O texto nostálgico recorda uma clara hierarquia: pais e professores exerciam autoridade reconhecida. A sociologia contemporânea observa que, nas últimas décadas, houve uma transição de modelos educativos baseados no dever para modelos centrados no bem-estar imediato da criança.

Quando equilibrada, essa mudança favorece o diálogo. Contudo, quando os limites tornam-se instáveis ou excessivamente negociáveis, pode surgir insegurança. A criança necessita de referências firmes para estruturar a própria liberdade. A ausência de contornos claros não produz autonomia, mas ansiedade.

A Doutrina Espírita ensina que a paternidade é missão (questão 582 de O Livro dos Espíritos), e que educar é formar o caráter. Autoridade não se confunde com autoritarismo; trata-se de orientação amorosa, não de imposição violenta.

4. Coesão social e identidade

O relato também menciona que diferenças de cor, classe ou gênero não eram centrais nas brincadeiras. A sociologia atual mostra que, no passado, muitas desigualdades eram menos discutidas publicamente, o que não significa que inexistissem. Hoje, há maior conscientização sobre diversidade e respeito, o que representa avanço moral.

Entretanto, a hiperidentificação por rótulos — intensificada pelas redes sociais — pode fragmentar o convívio. A identidade passa a ser definida por pertencimentos específicos, e não pela experiência comum. Esse fenômeno contribui para segmentações que dificultam o diálogo.

5. Quando foi que tudo mudou?

Não houve um dia exato de ruptura. A transformação foi gradual, acelerada por três fatores principais:

  • Urbanização e aumento da violência urbana, que reduziram a liberdade de brincar nas ruas.
  • Expansão da tecnologia digital, que substituiu interações presenciais por virtuais.
  • Mudança de paradigmas educativos, com transição de disciplina externa para ênfase no bem-estar individual.

Sob o prisma espírita, tais mudanças refletem o processo evolutivo da humanidade. Em A Gênese, esclarece-se que os períodos de transição moral são marcados por crises aparentes, nas quais valores antigos são questionados antes que novos se consolidem.

6. Depressão e vazio existencial: a questão mais urgente

Entre os desafios contemporâneos, destaca-se o crescimento dos transtornos depressivos, especialmente entre jovens. A Organização Mundial da Saúde aponta aumento significativo de quadros ansiosos e depressivos na última década.

À luz da Doutrina Espírita, o sofrimento moral não se explica apenas por fatores materiais. Quando o Espírito perde de vista o sentido da existência e reduz a vida à dimensão imediata, instala-se o vazio existencial. A questão 799 de O Livro dos Espíritos afirma que o progresso verdadeiro depende da destruição do egoísmo. Sem finalidade moral, o conforto material não satisfaz.

Vivemos, portanto, não apenas uma crise tecnológica ou pedagógica, mas uma crise de significado.

7. O que realmente faz falta?

Não é simplesmente a disciplina rígida nem apenas a liberdade irrestrita. O que fazia diferença era o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade. A rua ensinava convivência e resolução de conflitos; a família e a escola ofereciam contorno moral.

Hoje, muitas crianças estão protegidas do mundo físico, mas expostas sem filtro ao mundo digital. A disciplina imposta pelo medo deve dar lugar à disciplina construída pela consciência — conforme a lei inscrita na alma humana (questão 621).

Conclusão

A nostalgia da infância passada não é mero sentimentalismo. Ela expressa a lembrança de vínculos concretos, experiências sensoriais ricas e referências morais mais definidas. Entretanto, idealizar o passado não resolve os desafios do presente.

A Doutrina Espírita ensina que cada época traz provas compatíveis com o grau evolutivo da humanidade. Se antes o desafio era superar a disciplina pelo medo, hoje é aprender a autogovernar-se pela consciência. A tecnologia e as transformações sociais são instrumentos; o progresso moral continua sendo tarefa do Espírito.

Não se trata de voltar ao mimeógrafo ou abolir o smartphone, mas de restaurar o que sempre foi essencial: responsabilidade, convivência fraterna e sentido existencial. Sem isso, qualquer geração — antiga ou moderna — experimentará o mesmo vazio sob formas diferentes.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Paris, 1868.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).

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