Introdução
As palavras
de Jesus registradas no Evangelho de Mateus (10:34-36) e no Evangelho de Lucas
(12:49-53) causam, à primeira vista, perplexidade:
·
“Não vim trazer paz, mas a
espada.”
·
“Penseis vós que vim trazer
paz? Não, mas divisão.”
·
“Eu vim trazer fogo à Terra,
e que quero eu, senão que ele se acenda?”
Como
conciliar tais afirmações com a imagem do Cristo como Príncipe da Paz?
A Doutrina
Espírita, conforme organizada por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o
Espiritismo* (cap. XXIII – “Estranha Moral”), oferece interpretação
racional dessas passagens. Longe de sugerirem violência, elas anunciam o
impacto inevitável do progresso moral sobre uma humanidade ainda imperfeita.
1. A interpretação literal e seus equívocos
No senso
comum, tais expressões já foram tomadas como justificativa para conflitos
religiosos ou intolerância. A “espada” teria sido entendida como arma material;
a “divisão”, como ruptura deliberada entre pessoas; o “fogo”, como destruição
exterior.
Entretanto,
a própria mensagem global do Cristo invalida essa leitura. Ele ensina o amor
aos inimigos, a mansidão e o perdão. Uma interpretação coerente exige
compreender que se trata de linguagem figurada, comum à tradição
oriental.
2. A espada como conflito de ideias
No capítulo
XXIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, esclarece-se que a “espada”
simboliza a luta entre o passado e o futuro, entre ideias retrógradas e ideias
progressistas.
Toda
verdade nova provoca resistência. A história confirma esse princípio: avanços
científicos, sociais e morais sempre encontraram oposição inicial. Em pleno
século XXI, observa-se fenômeno semelhante nas transformações culturais
aceleradas pela tecnologia e pela comunicação digital. Ideias circulam com
rapidez inédita, mas também geram polarizações intensas.
Sob a ótica
espírita, esse conflito é expressão da Lei de Progresso, ensinada em O
Livro dos Espíritos. O progresso não se realiza sem abalar estruturas
antigas. A espada representa, portanto:
- o corte com o erro;
- a ruptura com hábitos viciosos;
- o esforço de renovação moral.
Antes de
tudo, trata-se de batalha íntima. O verdadeiro campo de luta é a consciência.
3. O fogo como purificação e entusiasmo moral
Quando
Jesus afirma ter vindo trazer “fogo à Terra”, refere-se ao poder transformador
de sua mensagem. O fogo, símbolo universal de purificação, consome impurezas
para revelar o essencial.
Na
perspectiva espírita, esse fogo é:
- a luz da razão aplicada à fé;
- o entusiasmo da caridade ativa;
- a energia moral que retira o indivíduo da
indiferença.
Vivemos
hoje uma era de intensas crises sociais, ambientais e éticas. Tais crises não
significam regressão absoluta, mas transição. Como ensinam os Espíritos na Revista
Espírita, as épocas de transformação são naturalmente agitadas. O fogo da
renovação agita para purificar.
4. A divisão como consequência, não finalidade
A “divisão”
mencionada por Jesus não é objetivo deliberado, mas consequência da liberdade
de consciência. Diante da verdade, cada Espírito reage conforme seu grau de
maturidade.
A Doutrina
Espírita explica que nem sempre os membros de uma mesma família são Espíritos
em igual estágio evolutivo. A convivência é, muitas vezes, oportunidade de
aprendizado mútuo. Quando um desperta para valores mais elevados, pode
enfrentar incompreensão dos demais.
Essa
divergência não significa ruptura definitiva, mas etapa do crescimento
coletivo. A afinidade espiritual prevalece sobre os laços meramente materiais.
5. Paz falsa e paz verdadeira
Jesus não
veio manter a “paz da acomodação”, baseada na aceitação passiva da injustiça. A
paz autêntica exige justiça e transformação moral.
A violência
física é retrocesso; revela incapacidade de convencer pela razão. A espada do
Cristo é a palavra esclarecida; o fogo é o ardor da consciência; a divisão é o
efeito do contraste entre luz e sombra.
Num mundo
em que conflitos armados ainda persistem e tensões ideológicas se intensificam
pelas redes digitais, a interpretação espiritual dessas passagens torna-se
especialmente necessária. O verdadeiro combate é contra o egoísmo e o orgulho,
causas profundas das guerras exteriores.
6. O campo de batalha interior
A Doutrina
desloca o centro da luta do exterior para o interior. O inimigo principal não é
o outro, mas as próprias imperfeições.
Em O
Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XVII, item 4), ensina-se que o
verdadeiro adepto reconhece-se por sua transformação moral e pelos esforços
para domar más inclinações.
Essa é a
única violência legítima: a disciplina de si mesmo.
Quando o
indivíduo vence a própria agressividade, contribui para a pacificação do meio.
A paz social começa na consciência individual.
7. O Consolador e a paz duradoura
O
Consolador prometido por Jesus não impõe paz externa; oferece esclarecimento.
Ao revelar a imortalidade da alma e a justiça das leis divinas, fornece base
racional para a serenidade.
A questão
1018 de O Livro dos Espíritos afirma que o bem triunfará quando os
homens o quiserem. A paz mundial não resulta de tratados frágeis, mas da
educação moral dos povos.
Sem transformação
íntima, toda paz é trégua temporária.
Conclusão
“Não vim trazer paz, mas a espada” não é
convocação à violência, mas anúncio do impacto da verdade sobre consciências
adormecidas.
·
A espada é o discernimento que separa o erro
da verdade.
·
O fogo é o entusiasmo que purifica.
·
A divisão é o efeito transitório do progresso.
A paz real
nasce após o conflito interior vencido. Quando o Espírito aprende a governar
suas paixões, torna-se foco de harmonia na coletividade. Multiplicados esses
focos, a sociedade se transforma.
Assim, as
palavras aparentemente severas do Cristo revelam-se expressão de profundo amor:
Ele não prometeu a tranquilidade da estagnação, mas a paz conquistada pela transformação
moral.
Referências
- Evangelho de Mateus, 10:34-36.
- Evangelho de Lucas, 12:49-53.
- Allan Kardec. O Evangelho Segundo o
Espiritismo, cap. XVII e XXIII.
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. Revista Espírita.
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