Introdução
Ao longo da história,
diversas tradições filosóficas sustentaram que o Universo é regido por leis
harmônicas e universais. Entre elas, princípios atribuídos a Hermes Trismegisto
sintetizaram a ideia de correspondência e unidade da criação.
Entretanto, é na
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec e desenvolvida metodicamente nas
páginas da Revista Espírita, que
esses princípios encontram explicação racional, submetida à observação, à
comparação e ao controle universal dos ensinos dos Espíritos.
Sem recorrer ao
misticismo, a Doutrina demonstra que o Universo é um todo solidário,
estruturado por leis naturais que regem tanto a matéria quanto o Espírito.
Examinemos essa questão à luz das obras fundamentais.
A
Unidade da Criação e o Fluido Cósmico Universal
Em O Livro dos Espíritos e, de forma mais desenvolvida, em A Gênese, ensina-se que toda a criação
procede de um princípio único: a matéria cósmica primitiva, também denominada
fluido cósmico universal.
Esse elemento primordial
constitui a base:
- da
matéria tangível;
- dos
fluidos imponderáveis;
- do
princípio vital;
- do
perispírito, envoltório semimaterial do Espírito.
A ciência contemporânea,
em sua linguagem própria, confirma a unidade estrutural da matéria: estrelas,
planetas e organismos vivos são formados pelos mesmos elementos fundamentais,
organizados de modos diversos. A diversidade não nega a unidade; antes, a
confirma.
A
Doutrina Espírita ensina que o mundo espiritual não constitui domínio à parte
nem exceção às leis da Natureza. Ele faz parte da criação e se submete às
mesmas leis gerais estabelecidas por Deus, diferindo do mundo corporal apenas
quanto ao estado e às propriedades da matéria que o compõem, mais sutil e menos
grosseira do que aquela perceptível aos sentidos físicos.
Correspondência
entre o Mundo Material e o Espiritual
A antiga máxima “o que está em cima é como o que está
embaixo” encontra interpretação precisa na Doutrina Espírita. Não se trata
de metáfora poética, mas de consequência da Lei de Causa e Efeito.
O Espírito, ao
desencarnar, não perde suas aquisições morais e intelectuais. Leva consigo o
patrimônio construído ao longo das experiências. Assim, há solidariedade entre
os dois planos da vida.
Nos estudos publicados
na Revista Espírita, especialmente
nos anos iniciais (1858–1860), demonstra-se que as manifestações espirituais
obedecem a leis regulares. O fenômeno não é milagre; é fato natural ainda não
plenamente explorado pela ciência material.
O microcosmo moral do
indivíduo repercute no macrocosmo social. O progresso coletivo depende do
esforço individual, como ensinam as questões finais de O Livro dos Espíritos. Cada consciência é célula ativa no organismo
da humanidade.
Consciência,
Vontade e Fluido: Uma Dinâmica Moral
A Doutrina Espírita
apresenta uma verdadeira “física moral”.
O Espírito atua pela
vontade.
A vontade dirige o fluido.
O fluido age sobre a matéria.
Em A Gênese (cap. VI), Kardec explica que o fluido cósmico universal,
modificado pela ação inteligente, produz efeitos variados. Nas experiências
relatadas na Revista Espírita,
verifica-se que a mediunidade não é milagre, mas intercâmbio fluídico regulado
por afinidade.
A moralidade não cria a
faculdade mediúnica, mas qualifica seu uso. A sintonia entre Espíritos depende
da qualidade do pensamento. Assim como instrumentos afinados vibram na mesma
nota, consciências afins se comunicam com facilidade.
A consciência, por sua
vez, é o ponto de convergência onde a Lei de Deus se manifesta interiormente.
Conforme a questão 621 de O Livro dos
Espíritos, a lei divina está inscrita na consciência.
O mal-estar diante do
erro e a serenidade após o dever cumprido são indicadores naturais dessa
harmonia ou desarmonia com a lei.
Lei de
Progresso e Transformação Íntima
A tradição antiga falava
em purificação, separando o “denso” do “sutil”. A Doutrina Espírita esclarece
essa metáfora à luz da Lei de Progresso.
O Espírito é criado
simples e ignorante. Por meio das encarnações sucessivas, desenvolve suas
faculdades intelectuais e morais. A matéria não é obstáculo, mas instrumento
educativo.
Separar o “denso” do
“sutil” significa:
- abandonar
imperfeições;
- desenvolver
virtudes;
- substituir
egoísmo por solidariedade.
A verdadeira
transmutação é moral. Trata-se da transformação íntima — processo pelo qual o
Espírito depura suas tendências e harmoniza a vontade com a lei divina.
Em O Livro dos Espíritos (questão 1018 ou 1019 dependendo da editora),
afirma-se que o progresso depende do esforço individual. Não há privilégio nem
favoritismo. Cada existência é oportunidade de crescimento.
Revelação
Progressiva e Harmonia com a Ciência
Um dos maiores avanços
trazidos pela Codificação foi retirar o caráter sobrenatural dos fenômenos
espirituais. Aplicando método comparativo e análise crítica, estabeleceu-se
que:
- O
Universo é regido por leis fixas.
- O
mundo espiritual não as viola.
- A
revelação é progressiva e coletiva.
Em A Gênese, afirma-se que, se a ciência demonstrar erro em algum
ponto secundário, a Doutrina deve acompanhar a verdade comprovada. Essa postura
revela confiança na harmonia entre ciência e espiritualidade.
Hoje, com os avanços no
estudo da energia, dos campos invisíveis e da interconexão sistêmica da
natureza, compreende-se melhor que a realidade é mais ampla do que os sentidos
físicos alcançam. A Doutrina Espírita não se opõe ao progresso científico; antes,
dialoga com ele.
Unidade
Viva e Responsabilidade Moral
A Doutrina Espírita
ensina que matéria e Espírito não constituem domínios isolados, mas expressões
de uma mesma criação regida por leis imutáveis.
O progresso individual
repercute no coletivo. A transformação moral não é apenas benefício pessoal; é
contribuição para a harmonia social. Mudar o mundo começa por mudar a sintonia
interior.
Não possuímos a verdade
absoluta. Temos a parcela compatível com nossa maturidade. Essa consciência
gera humildade e responsabilidade.
A Lei de Progresso é
irreversível. O futuro não é mistério ameaçador, mas campo aberto ao
aperfeiçoamento. A cada etapa, ampliamos o entendimento das leis divinas e nos
aproximamos da harmonia universal.
Compreender essa unidade
é abandonar o acaso e o milagre como explicação dos fatos, substituindo-os pela
certeza de que tudo obedece a uma ordem sábia e justa — expressão da
Inteligência Suprema que governa o Universo.
Referências
- O Livro dos Espíritos — Allan Kardec.
- A Gênese — Allan Kardec.
- Revista Espírita (1858–1869).
- Tábua de Esmeralda — atribuída a Hermes Trismegisto.
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