sábado, 14 de fevereiro de 2026

O SILÊNCIO DOS BONS, PROGRESSO MORAL,
CORAGEM E AÇÃO COLETIVA
- A Era do Espírito -

Introdução

Ao encerrar O Livro dos Espíritos, a questão 1018 funciona como um verdadeiro “fecho de ouro” da obra. Nela, Allan Kardec pergunta sobre o triunfo do bem na Terra. A resposta dos Espíritos não é um enunciado abstrato, mas um tratado prático sobre progresso coletivo, responsabilidade moral e superação do egoísmo.

Lida hoje, à luz da Codificação Espírita e dos estudos da Revista Espírita, a questão 1018 revela-se um chamado à ação organizada: o progresso é inevitável, mas a sua velocidade depende da união dos que desejam o bem.

1. O mal não é fatalidade

Os Espíritos esclarecem que o mal parece dominar não por ser mais forte, mas porque “os bons são tímidos”. Trata-se de um diagnóstico social: interesses egoístas costumam ser audaciosos e organizados; já as intenções nobres, quando isoladas, perdem eficácia.

A Lei de Progresso atua sempre, porém a falta de coesão retarda seus efeitos e amplia o sofrimento coletivo. O problema não é a inexistência do bem, mas a dispersão dos que o praticam.

2. União e trabalho em rede

A resposta da questão 1018 (ou 1019 dependendo a editora) converge com o método espírita:

  • o mal parece vencer quando está organizado pelo egoísmo;
  • o bem triunfa quando se organiza pela solidariedade.

O progresso moral exige uma “massa crítica” de indivíduos dispostos a agir, e não apenas a observar. Essa lógica — já presente no século XIX — dialoga diretamente com a noção contemporânea de inteligência coletiva: resultados duradouros nascem da cooperação orientada por fins éticos.

3. Da passividade à transformação íntima

Kardec pergunta se o bem poderá reinar. A resposta é afirmativa, mas condicionada à mudança do homem interior. Leis, tecnologias e instituições não substituem a renovação moral.

A própria Codificação é clara: não fazer o mal não basta. Em O Livro dos Espíritos (questão 642), aprendemos que o homem é responsável pelo mal que resulta de não ter feito o bem. O silêncio diante da injustiça torna-se cumplicidade e retarda a evolução social.

4. O Consolador e a coragem moral

A missão do Consolador — orientada pelo Espírito de Verdade — trouxe o esclarecimento (progresso intelectual). A questão 1018 enfatiza a vontade (progresso moral). O Reino de Deus na Terra não virá por milagre, mas por estratégia de ação:

  1. o indivíduo se melhora;
  2. grupos se fortalecem;
  3. a sociedade se transforma.

O estudo espírita visa converter a “timidez dos bons” em coragem moral: agir com serenidade, firmeza e responsabilidade.

5. Tecnologia: amplificador do bem ou do ego

Nunca houve tantas ferramentas para romper o silêncio. Hoje, ideias solidárias podem mobilizar milhões rapidamente; redes de apoio superam fronteiras; o conhecimento é acessível em tempo real. Ao mesmo tempo, surgem novos obstáculos:

  • ativismo superficial, que substitui a ação real;
  • bolhas que alimentam a polarização;
  • distração crônica, que drena a energia do trabalho persistente.

À luz da questão 1018, o problema não é a tecnologia, mas a direção moral que lhe damos. Ela é o veículo; a caridade — o amor em ação — precisa ser o condutor.

6. O estudo como antídoto à paralisia moral

Os textos da Revista Espírita mostram que nada é aleatório: pensamentos e atos produzem efeitos. Compreender a lei de causa e efeito desperta responsabilidade: não agir também é escolher.

Além disso, a máxima atribuída a São Vicente de Paulo — estar sempre entre um superior que orienta e um inferior a quem devemos servir — rompe a solidão moral. A coragem nasce quando o foco sai do medo pessoal e se fixa no dever de servir.

7. Prece e emissão do pensamento (não ritual)

A Codificação ensina que, na prece consciente e na emissão do pensamento, não é a palavra que opera, mas a intenção que lhe dá força e direção. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XXVII), compreende-se que a forma, por si só, nada realiza se não estiver sustentada por conteúdo moral e sincero sentimento.

Frases breves podem auxiliar a concentração se servirem de suporte ao sentimento e à vontade, jamais como repetição automática. Kardec valorizaria sínteses morais que conduzem à ação — por exemplo, o princípio: fora da caridade não há salvação.

Conclusão

A questão 1018 ensina que o progresso é certo, mas a duração da dor depende da nossa organização para o bem. O mal aparenta força quando o bem se cala; o bem triunfa quando se torna operante, unido e perseverante.

No mundo conectado de hoje, o silêncio é uma escolha mais consciente do que nunca. A Doutrina Espírita não propõe uma moral de contemplação, mas uma ciência de ação: esclarecer para agir, agir para transformar. Quando a razão reconhece que o bem coletivo é a única saída lógica, a coragem moral deixa de ser heroísmo isolado e passa a ser função natural do trabalho em rede.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos — especialmente as questões 642 e 1018.
  • Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo — cap. XXVII (Da prece).
  • Allan Kardec. Revista Espírita.

 

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