Introdução
Ao encerrar
O Livro dos Espíritos, a questão 1018 funciona como um verdadeiro “fecho
de ouro” da obra. Nela, Allan Kardec pergunta sobre o triunfo do bem na Terra.
A resposta dos Espíritos não é um enunciado abstrato, mas um tratado prático
sobre progresso coletivo, responsabilidade moral e superação
do egoísmo.
Lida hoje,
à luz da Codificação Espírita e dos estudos da Revista Espírita, a
questão 1018 revela-se um chamado à ação organizada: o progresso é inevitável,
mas a sua velocidade depende da união dos que desejam o bem.
1. O mal não é fatalidade
Os
Espíritos esclarecem que o mal parece dominar não por ser mais forte, mas
porque “os bons são tímidos”. Trata-se de um diagnóstico social:
interesses egoístas costumam ser audaciosos e organizados; já as intenções
nobres, quando isoladas, perdem eficácia.
A Lei de
Progresso atua sempre, porém a falta de coesão retarda seus efeitos e amplia o
sofrimento coletivo. O problema não é a inexistência do bem, mas a dispersão
dos que o praticam.
2. União e trabalho em rede
A resposta
da questão 1018 (ou 1019 dependendo a editora) converge com o método espírita:
- o mal parece vencer quando está organizado
pelo egoísmo;
- o bem triunfa quando se organiza pela
solidariedade.
O progresso
moral exige uma “massa crítica” de indivíduos dispostos a agir, e não apenas a
observar. Essa lógica — já presente no século XIX — dialoga diretamente com a
noção contemporânea de inteligência coletiva: resultados duradouros
nascem da cooperação orientada por fins éticos.
3. Da passividade à transformação íntima
Kardec
pergunta se o bem poderá reinar. A resposta é afirmativa, mas condicionada à mudança
do homem interior. Leis, tecnologias e instituições não substituem a
renovação moral.
A própria
Codificação é clara: não fazer o mal não basta. Em O Livro dos
Espíritos (questão 642), aprendemos que o homem é responsável pelo mal que
resulta de não ter feito o bem. O silêncio diante da injustiça torna-se
cumplicidade e retarda a evolução social.
4. O Consolador e a coragem moral
A missão do
Consolador — orientada pelo Espírito de Verdade — trouxe o esclarecimento
(progresso intelectual). A questão 1018 enfatiza a vontade (progresso
moral). O Reino de Deus na Terra não virá por milagre, mas por estratégia de
ação:
- o indivíduo se melhora;
- grupos se fortalecem;
- a sociedade se transforma.
O estudo
espírita visa converter a “timidez dos bons” em coragem moral: agir com
serenidade, firmeza e responsabilidade.
5. Tecnologia: amplificador do bem ou do ego
Nunca houve
tantas ferramentas para romper o silêncio. Hoje, ideias solidárias podem
mobilizar milhões rapidamente; redes de apoio superam fronteiras; o
conhecimento é acessível em tempo real. Ao mesmo tempo, surgem novos
obstáculos:
- ativismo superficial, que substitui a ação real;
- bolhas que
alimentam a polarização;
- distração crônica, que drena a energia do trabalho persistente.
À luz da
questão 1018, o problema não é a tecnologia, mas a direção moral que lhe
damos. Ela é o veículo; a caridade — o amor em ação — precisa ser o condutor.
6. O estudo como antídoto à paralisia moral
Os textos
da Revista Espírita mostram que nada é aleatório: pensamentos e atos
produzem efeitos. Compreender a lei de causa e efeito desperta
responsabilidade: não agir também é escolher.
Além disso,
a máxima atribuída a São Vicente de Paulo — estar sempre entre um superior que
orienta e um inferior a quem devemos servir — rompe a solidão moral. A coragem
nasce quando o foco sai do medo pessoal e se fixa no dever de servir.
7. Prece e emissão do pensamento (não ritual)
A Codificação ensina que, na prece
consciente e na emissão do pensamento, não é a palavra que opera, mas a
intenção que lhe dá força e direção. Em O
Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XXVII), compreende-se que a
forma, por si só, nada realiza se não estiver sustentada por conteúdo moral e
sincero sentimento.
Frases
breves podem auxiliar a concentração se servirem de suporte ao
sentimento e à vontade, jamais como repetição automática. Kardec valorizaria
sínteses morais que conduzem à ação — por exemplo, o princípio: fora da
caridade não há salvação.
Conclusão
A questão
1018 ensina que o progresso é certo, mas a duração da dor depende da nossa
organização para o bem. O mal aparenta força quando o bem se cala; o bem
triunfa quando se torna operante, unido e perseverante.
No mundo
conectado de hoje, o silêncio é uma escolha mais consciente do que nunca. A
Doutrina Espírita não propõe uma moral de contemplação, mas uma ciência de
ação: esclarecer para agir, agir para transformar. Quando a razão reconhece
que o bem coletivo é a única saída lógica, a coragem moral deixa de ser
heroísmo isolado e passa a ser função natural do trabalho em rede.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos
— especialmente as questões 642 e 1018.
- Allan Kardec. O Evangelho Segundo o
Espiritismo — cap. XXVII (Da prece).
- Allan Kardec. Revista Espírita.
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