sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O VERDADEIRO SENTIDO DAS HOMENAGENS
AOS QUE PARTIRAM
- A Era do Espírito -

Resumo inicial

A visita aos cemitérios é um costume antigo, presente em diversas culturas e religiões. Para muitos, é um gesto de amor e saudade. Para outros, uma tentativa de manter perto quem partiu. Entretanto, do ponto de vista da Doutrina Espírita — fundamentada em Allan Kardec e na observação racional dos fatos espíritas — o Espírito não permanece no túmulo. O corpo volta ao pó; o Espírito retorna à vida verdadeira. Neste artigo, analisamos o significado das homenagens, o impacto emocional do luto e o papel da oração sincera, à luz de O Livro dos Espíritos, da Revista Espírita (1858–1869) e de obras complementares do Espiritismo. Amar não é prender: é libertar com confiança em Deus.

Introdução

Visitar cemitérios é um hábito milenar. Nas mais diversas culturas, as pessoas oferecem flores, velas e orações aos que partiram, como se estivessem visitando alguém que permanece ali. Esse comportamento revela um traço psicológico profundo: a dificuldade em aceitar que a morte é apenas separação do corpo, não da pessoa amada.

Em pesquisas recentes sobre saúde emocional e luto (2024), psicólogos afirmam que aproximadamente 70% das pessoas associam o cemitério ao sentimento de “estar perto” do falecido, mesmo quando acreditam na sobrevivência da alma. Esse sentimento nasce, muitas vezes, de uma confusão: identificar o ser com o corpo.

A Doutrina Espírita, porém, ensina o contrário.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, pergunta:

“Onde fica o Espírito após a morte?”
Entre os seres vivos com os quais tem afinidades (LE, questão 234 e 455).

Ou seja: ele continua vivo, consciente, próximo de quem ama — e não preso ao túmulo.

1. A morte não leva o amor — apenas muda o endereço

Somos Espíritos que utilizam temporariamente um corpo físico. Quando desencarnamos, a vida verdadeira recomeça.

“Morrer é renascer para a verdadeira vida.”
A Gênese, cap. IV (Allan Kardec)

O Espírito conserva:

  • sua consciência,
  • sua memória,
  • seus afetos,
  • seu caráter.

A Revista Espírita (dez/1859) apresenta diversos relatos de Espíritos que descrevem o retorno ao mundo espiritual como despertar de um sonho, enquanto o corpo é comparado a uma “roupa usada” que se abandona.

Assim, o cemitério não é morada do Espírito.

É apenas o local onde repousam os restos da vestimenta física.

2. “Perdi alguém”: palavras que revelam crenças

Quando alguém diz “perdi meu marido”, “perdi minha mãe”, expressa o sofrimento da ausência, mas também uma visão equivocada: a de que a pessoa deixou de existir.

Quem compreende a imortalidade do Espírito não perde ninguém; apenas experimenta a saudade da separação temporária.

Como ensina Kardec (LE, q. 934):

“A separação é apenas temporária.”

O amor não é enterrado com o corpo.

3. Podemos chorar. Devemos sentir. Mas com sabedoria.

O choro em si não é problema; é expressão de afeto.

O que causa sofrimento ao Espírito é:

  • o desespero,
  • a revolta,
  • o apego exagerado que tenta “puxá-lo de volta”.

A Revista Espírita registra diversos depoimentos de Espíritos perturbados pelas lamentações dos familiares, impedidos de seguir adiante por causa da dor que absorvem dos encarnados.

O Espiritismo aconselha:

  • saudade serena, não desespero;
  • oração, não desgaste emocional.

“A prece é uma evocação; põe o Espírito comunicante em relação com o que ora.”O Livro dos Médiuns, cap. XXV

O amor ajuda.

A aflição retém.

4. Devemos visitar cemitérios?

O Espiritismo é neutro quanto à visita a cemitérios. A Doutrina Espírita jamais desaconselhou essa prática — ao contrário, reconhece que as homenagens aos entes queridos são legítimas quando nascem do coração e não de convenções sociais.

O que o Espiritismo faz é orientar e esclarecer:

• O Espírito não permanece no túmulo.
Após o desligamento do corpo físico, o Espírito retorna à vida espiritual. O corpo, feito de matéria, se decompõe na terra, mas o ser que amamos continua vivendo, consciente e sensível aos nossos pensamentos e sentimentos.

• A melhor homenagem não é material, e sim moral.
Mais do que flores sobre o mármore, vale a oração sincera que se eleva em direção ao bem. A flor murcha; a prece permanece.

Por isso, o espírita não precisa estar no cemitério para “ficar perto” de quem partiu. A presença espiritual não se estabelece pela proximidade do corpo, mas pela sintonia de pensamentos. Mantemos o vínculo com os que amamos pela lembrança afetuosa, pela prece e pelos atos de bondade que praticamos em seu nome.

O Espírito é honrado na continuidade do amor, não no ritual do local. O verdadeiro laço que nos une aos que partiram não é feito de pedra, mas de sentimento.

Conclusão

Se o ser amado continua vivo, lúcido e presente, a morte não rompe laços — apenas muda a forma de convivência.

  • O corpo fica no cemitério.
  • O amor continua na alma.
  • A ligação persiste pela prece e pela sintonia.

Não se cura a saudade tentando abraçar um túmulo, mas sim abraçando a vida com esperança.

Ninguém é perdido.
Ninguém desaparece.
A vida prossegue.

Referências

Obras de Allan Kardec

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Principais questões: 149, 234, 455, 934, 957.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª Parte, cap. XXV — “Das Evocações”.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. IV — “A vida e a morte”.
  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª Parte — “Exemplos”.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869). Relatos sobre luto, visitas espirituais e sobrevivência da alma.

Obras complementares

  • XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito Emmanuel). O Consolador.
  • XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito André Luiz). Nosso Lar.

 


OBSESSÃO ESPIRITUAL
CAUSAS, CONSEQUÊNCIAS E CAMINHOS
PARA A TRANSFORMAÇÃO ÍNTIMA
- A Era do Espírito -

Introdução

Vivemos um período de profundas mudanças sociais, emocionais e espirituais. O excesso de estímulos, a pressão por produtividade e a fragilidade dos vínculos humanos têm aumentado os índices de ansiedade, depressão e transtornos de comportamento. No contexto espírita, muitas dessas perturbações encontram explicação também na interação constante entre encarnados e desencarnados, fenômeno denominado obsessão espiritual.

Allan Kardec, ao codificar o Espiritismo — apoiado em observações, experimentação e análise — foi objetivo:

“A obsessão é a ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo.” (O Livro dos Médiuns, cap. XXIII)

Não se trata de superstição ou explicação mística, mas de uma relação de influência mental e vibracional entre consciências. E essa influência só se estabelece porque encontra porta aberta na fragilidade moral e emocional do encarnado.

Assim, a obsessão não é apenas um ataque externo: ela reflete um estado espiritual interno.

1. O que é obsessão espiritual?

A obsessão é o domínio que um espírito exerce sobre uma pessoa encarnada, variando de intensidade:

  • Obsessão simples: influência e indução de pensamentos negativos.
  • Fascinação: o obsessor interfere na percepção da realidade e manipula a visão que o indivíduo tem de si e dos outros.
  • Subjugação: domínio mais profundo, podendo afetar a vontade e até o corpo físico.

O processo é contínuo — Kardec usa o termo “ação permanente” — porque envolve sintonia mental.

Um Espírito só permanece ligado a alguém quando encontra afinidade moral.

“Os Espíritos nos influenciam muito mais do que imaginais.” (O Livro dos Espíritos, q. 459)

Não há obsessão sem consentimento vibratório.

2. Espíritos maus existem para sempre?

No Espiritismo, não existem condenações eternas.

Os Espíritos chamados “maus” são almas humanas que estacionaram na rebeldia e no egoísmo. Não foram criados assim e não permanecerão assim para sempre. Kardec explica que:

“Todo Espírito tende à perfeição.” (O Livro dos Espíritos, q. 115)

Mesmo os mais cruéis carregam, adormecida, a essência divina.

Em muitos casos de desobsessão relatados na Revista Espírita (1858–1869), Espíritos profundamente endurecidos se transformam após receberem vibrações de amor, reconhecimento e acolhimento moral. Muitas dessas mudanças acontecem quando um Espírito querido — como uma mãe — intercede, tocando-lhe o coração.

A lei divina não é de punição: é de regeneração e crescimento.

3. Por que alguém se torna alvo de obsessão?

A obsessão não é aleatória. Em 90% dos casos observados nas casas espíritas, a origem é:

1. Vingança ou ajuste de contas, muitas vezes de existências passadas. O “perseguido de hoje” foi, muitas vezes, o “agressor de ontem”.

2. Afinidade com vícios ou comportamentos de degradação moral:
    • vício em álcool, drogas ou sexo,
    • desonestidade,
    • abuso de poder,
    • orgulho e vaidade.
Kardec sintetiza: “Os semelhantes se atraem.”

3. Magia inferior / trabalhos de natureza obsessiva. Os Espíritos inferiores são facilmente manipuláveis por mentes humanas ainda dominadas pelo ódio.

O obsessor não invade: ele é atraído.

4. Como se instala a obsessão?

A obsessão não começa de repente. Ela se infiltra por:

  • pensamentos de ódio,
  • ressentimentos,
  • culpa persistente,
  • orgulho ferido.

A mente, quando desequilibrada, abre brechas no campo espiritual. E o Espírito obsessor utiliza essas brechas como ponto de ligação.

O processo é semelhante ao vício: começa no pensamento, se fixa na emoção e domina o comportamento.

5. Como se libertar da obsessão: o caminho da transformação íntima

A Doutrina Espírita ensina que o tratamento da obsessão não é magia, nem milagre: é construção de consciência.

Três pilares sustentam o processo:

1. Transformação íntima

O Espiritismo propõe algo mais profundo: transformação íntima, mudança do modo de ser sem perder a essência espiritual.

É um movimento evolutivo de dentro para fora, que envolve:

    • mudança de hábitos,
    • desenvolvimento de virtudes,
    • renovação de pensamentos e atitudes.

2. Higiene mental e emocional

    • vigiar pensamentos,
    • cultivar sentimentos nobres,
    • evitar ambientes e conteúdos de baixa vibração.

Os Espíritos inferiores só se ligam onde encontram ressonância.

3. Assistência espiritual

O centro espírita oferece recursos seguros:

  • passe espiritual (transfusão de energias e harmonização magnética),
  • água fluidificada,
  • reuniões de desobsessão (assistência ao obsessor e ao obsediado),
  • estudo das obras de Kardec.

O passe não é milagre: ele apenas fortalece o campo energético para que a transformação possa acontecer.

Conclusão

A obsessão espiritual não é castigo, nem maldição.

É oportunidade de crescimento e reconciliação — muitas vezes, com nós mesmos.

O obsessor deixa de existir quando cessamos a sintonia com ele.

Quando elevamos nossa vibração, rompemos espontaneamente os laços da obsessão.

A vitória sobre a obsessão não acontece no combate externo, mas na vitória moral sobre nós mesmos.

Não existe poder maior que o amor — e nenhum Espírito permanece prisioneiro do mal quando descobre o valor de amar.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1861.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (coleção completa 1858–1869).
  • Obras complementares da Doutrina Espírita e estudos de reuniões de desobsessão em centros espíritas kardecistas.

 

CORAGEM ALÉM DA MATÉRIA
A ABNEGAÇÃO DE NEERJA BHANOT
- A Era do Espírito -

Introdução

Em um mundo marcado pelo individualismo e pela cultura do medo, gestos de coragem altruísta têm um impacto moral profundo. A história de Neerja Bhanot, comissária de bordo indiana que sacrificou a própria vida em 1986 para salvar centenas de pessoas durante o sequestro do voo Pan Am 73, continua a ecoar como testemunho de amor ao próximo — valor universal defendido pelo Espiritismo.

Na Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, o heroísmo moral não se define por violência ou orgulho, mas pela capacidade de colocar o bem coletivo acima dos interesses pessoais, mesmo quando a própria vida está em risco. Kardec afirma em O Livro dos Espíritos que a verdadeira grandeza do Espírito se revela pela abnegação e pelo sacrifício consciente em benefício de outrem (questões 886 e 918). É nesse horizonte que analisamos a atitude de Neerja: não apenas como um ato humano, mas como expressão de maturidade espiritual.

Neerja Bhanot: quando o amor vence o medo

Em 5 de setembro de 1986, o voo Pan Am 73, estacionado em Karachi (Paquistão), foi invadido por quatro terroristas. No interior do avião estavam 380 passageiros e 13 tripulantes. Neerja, então com apenas 22 anos e chefe de cabine, tomou decisões que salvaram 359 vidas.

Seus principais atos de heroísmo foram:

  1. Alertou os pilotos imediatamente, permitindo que escapassem pela escotilha superior.
    Sem o comando técnico da aeronave, os sequestradores perderam o controle estratégico da situação.
  2. Escondeu passaportes de cidadãos norte-americanos, impedindo que fossem identificados como alvos prioritários.
  3. Organizou e guiou a evacuação, abrindo portas de emergência sob fogo cruzado.
  4. Seu sacrifício final: foi mortalmente atingida protegendo três crianças durante o tiroteio final.

Sua atitude demonstra o que o Espiritismo chama de instinto de solidariedade, a expressão mais elevada do sentimento de amor universal.

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega em domar suas más inclinações.”O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4

Neerja não era espírita — mas sua conduta revela virtudes universais.

O heroísmo segundo o Espiritismo

A Doutrina Espírita não enxerga a vida apenas como existência biológica. A vida é caminho de progresso espiritual, e cada ação moralmente elevada contribui para o crescimento da alma. Em O Livro dos Espíritos, os Espíritos superiores esclarecem:

  • A verdadeira caridade é benevolência e sacrifício (questões 886 e 888).
  • O valor moral se prova nas ações, não nas palavras (questão 919).

Neerja teve segundos para decidir, e escolheu o bem.

Abriu mão da própria segurança para salvar desconhecidos — o que Kardec qualifica como abnegação sublime.

O Espírito de Verdade — guia moral da Codificação — afirma:

“Amai-vos e instruí-vos.” — O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI

Neerja amou.

Quando o sacrifício não é perda, mas ganho espiritual

Segundo o Espiritismo, a vida corpórea é apenas um capítulo da existência. A alma leva consigo:

  • as virtudes,
  • o amor que ofereceu,
  • o bem que realizou.

Kardec explica que o sacrifício voluntário pelo bem é mérito que fortalece o Espírito em suas futuras existências. (Revista Espírita, janeiro de 1862). Assim, o ato de Neerja não termina no instante de sua morte. Ele se projeta na eternidade.

A sociedade reconheceu seu valor ao conceder-lhe o Ashoka Chakra, a mais alta condecoração civil de bravura da Índia. Mas, do ponto de vista espiritual, sua maior recompensa é íntima e eterna: o avanço moral do Espírito.

Seus atos são a concretização da frase de Jesus:

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.” (João 15:13)

Neerja deu a vida até pelos que não conhecia.

O Espiritismo e o heroísmo cotidiano

Embora não sejamos chamados a enfrentar terroristas, o Espiritismo nos lembra que:

  • heroísmo também está em perdoar,
  • em ajudar alguém em silêncio,
  • em agir com ética no trabalho,
  • em servir sem esperar reconhecimento.

Há heroísmo espiritual em cada atitude em que prevalece o amor.

A coragem que transforma o mundo nem sempre aparece nos noticiários,
mas sempre transforma consciências.

Conclusão

Neerja Bhanot nos convida a refletir sobre o valor da vida, da solidariedade e do amor. Sua atitude confirma que a verdadeira grandeza moral é silenciosa, imediata e instintivamente voltada ao bem.

Para o Espiritismo, gestos como o de Neerja são marcos evolutivos da humanidade, sinais de que estamos avançando na direção do “Reino de Deus” — que começa dentro de nós.

Sua história nos lembra:

A coragem é uma força espiritual.

O amor é a sua melhor expressão.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (coleção completa 1858–1869).
  • Obras complementares da Codificação Espírita.
  • Biografia e registros históricos sobre Neerja Bhanot (Pan Am 73, 1986).

 

AS PESSOAS E SUAS INFLUÊNCIAS ESPIRITUAIS
- A Era do Espírito -

Introdução

A convivência humana é um dos maiores laboratórios da evolução espiritual. Desde os primórdios, o Espírito encarnado aprende por meio do contato com o outro — no lar, no trabalho, na sociedade —, e cada relação se torna uma oportunidade de crescimento moral. Em tempos de hiperconectividade, quando somos expostos diariamente a inúmeras influências, tanto presenciais quanto virtuais, torna-se essencial compreender que tipo de energia estamos emitindo e recebendo.

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, oferece instrumentos lúcidos para entender esse intercâmbio de naturezas morais e espirituais. Ela nos mostra que os laços humanos não são frutos do acaso, mas expressões das afinidades e das necessidades evolutivas de cada Espírito. Assim, refletir sobre “que tipo de pessoa somos” é um exercício de autoconhecimento e de responsabilidade perante as Leis Divinas.

1. A diversidade das almas no convívio humano

Durante nossa existência, cruzamos com pessoas de diversas naturezas espirituais. Algumas irradiam alegria, paz e amor; outras, ainda presas a imperfeições morais, espalham desânimo, irritação ou discórdia. A Doutrina Espírita explica que essa diversidade decorre dos diferentes graus de adiantamento dos Espíritos encarnados na Terra, um mundo ainda classificado como de provas e expiações (O Livro dos Espíritos, q. 132 e 172).

As chamadas pessoas-sol, pessoas-lua, pessoas-lar e pessoas-amor representam aqueles Espíritos que, mesmo em meio às lutas, já compreenderam o valor do bem, da fraternidade e do perdão. São os portadores da luz moral, cujas vibrações harmoniosas magnetizam os ambientes e aliviam as dores alheias.

Em contrapartida, as pessoas-egoísmo, pessoas-orgulho ou pessoas-ódio simbolizam Espíritos que ainda se debatem nos conflitos do ego, sem perceber que toda ação contrária ao amor é autodestrutiva. Elas nos servem de espelho e de aprendizado, mostrando o que ainda precisamos corrigir em nós.

2. As afinidades espirituais e as leis de sintonia

Kardec ensina que “os Espíritos simpatizam uns com os outros segundo a semelhança de seus sentimentos” (O Livro dos Espíritos, q. 279). Isso significa que os encontros humanos não são fortuitos: atraímos ou repelimos pessoas conforme o teor vibratório que cultivamos.

No campo invisível, nossas psicosferas — campos mentais e emocionais — se entrelaçam, formando redes de afinidade. Quando há sintonia de amor e respeito, as trocas são edificantes; quando há orgulho, ciúme ou inveja, surgem choques e desgastes energéticos.

Essa compreensão é fundamental no mundo atual, em que as interações digitais ampliam nossa convivência para além das fronteiras físicas. Cada mensagem, cada comentário, cada palavra é uma emissão fluídica que contribui para o bem ou para o desequilíbrio coletivo.

3. As influências invisíveis e o papel da vigilância moral

A Revista Espírita (dezembro de 1861) já alertava que “vivemos mergulhados num oceano de influências espirituais”. Assim como o ar invisível nos envolve, os Espíritos — encarnados e desencarnados — trocam constantemente pensamentos e sentimentos.

Quando cultivamos boas intenções, atraímos Espíritos benévolos, que nos inspiram à paciência e à esperança. Mas, se nos deixamos dominar pelo pessimismo, pelo orgulho ou pela cólera, abrimos espaço à influência de Espíritos menos esclarecidos.

Por isso, Jesus nos recomendou: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mateus 26:41). A vigilância é o filtro da alma, e a oração é o canal de sintonia com o alto. Ambas nos ajudam a manter a serenidade diante das pessoas que cruzam nossos caminhos — sejam elas luzes ou desafios em nossa estrada.

4. O autoconhecimento como chave da convivência fraterna

Mais importante do que identificar se alguém é uma pessoa-amor ou uma pessoa-discórdia é perguntar: que tipo de pessoa sou eu?

A Doutrina Espírita nos convida ao exame de consciência, ao esforço constante de transformação íntima — não para julgar o outro, mas para aprimorar a nós mesmos. No Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XVII, item 4), Kardec ensina que o verdadeiro espírita é reconhecido pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.

Ser uma pessoa-concórdia, uma pessoa-amizade, uma pessoa-paz é construir ao redor de si um campo magnético de harmonia, capaz de influenciar positivamente lares, ambientes e instituições.

Conclusão

Vivemos entre pessoas de todos os tipos e graus evolutivos porque a Terra é uma escola de almas. Cada encontro é uma lição, cada convivência é uma oportunidade de progresso. A Doutrina Espírita nos mostra que ninguém entra em nossa vida por acaso: uns vêm para despertar o amor, outros para testar a paciência, e todos, sem exceção, nos auxiliam a crescer.

Ao final, a pergunta essencial permanece: seremos nós uma pessoa-luz ou uma pessoa-sombra? Uma pessoa-amor ou uma pessoa-indiferença?

A resposta está nas escolhas diárias que fazemos diante da vida e dos outros.

Referências

  • ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos. 1860.
  • ALLAN KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
  • ALLAN KARDEC. A Gênese. 1868.
  • ALLAN KARDEC. Revista Espírita (1858–1869), diversos volumes.
  • Momento Espírita. As pessoas. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=7542&stat=0.
  • JESUS CRISTO. Evangelho segundo Mateus, 26:41.

 

APARIÇÕES E SOBREVIVÊNCIA DA ALMA
- A Era do Espírito -

Resumo

Este artigo analisa relatos clássicos de aparições estudados por instituições como a Society for Psychical Research (SPR) desde o século XIX — incluindo os casos de Ramsbury, Chaffin e Worrell — à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec. Busca-se compreender de que modo tais ocorrências se relacionam com o princípio espírita da sobrevivência da alma e da comunicabilidade dos Espíritos, considerando o método racional proposto por Kardec e as investigações descritas na Revista Espírita (1858–1869). A análise propõe um olhar equilibrado entre a observação empírica e o entendimento moral e filosófico da existência espiritual, destacando que o Espiritismo não se limita ao fenômeno, mas o integra a uma visão científica e ética da vida após a morte.

Introdução

Desde a antiguidade, relatos de aparições de pessoas falecidas acompanham a história da humanidade. Com o advento do positivismo no século XIX e o surgimento de sociedades dedicadas ao estudo científico do espiritual, como a Society for Psychical Research (SPR), fundada em Londres em 1882, tais fenômenos passaram a ser registrados e analisados de modo sistemático.

Casos como o de Ramsbury, na Inglaterra, em que nove pessoas afirmaram ver o mesmo homem falecido; o do testamento Chaffin, nos Estados Unidos, em que uma “aparição” teria revelado a localização de um documento; ou o das experiências extracorpóreas de Elaine Worrell, investigadas por Hornell Hart, suscitam uma questão essencial: seriam essas manifestações provas da sobrevivência da alma?

À luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, tais fenômenos encontram explicação coerente e racional, dentro de um corpo organizado de princípios científicos, filosóficos e morais. O Espiritismo não nega a investigação empírica, mas oferece-lhe um sentido mais profundo — o da continuidade da vida e da comunicabilidade entre o mundo material e o espiritual.

1. O método de Kardec e a observação dos fenômenos

Antes mesmo da criação da SPR, Allan Kardec já havia estabelecido, em O Livro dos Médiuns (1861), os fundamentos científicos da observação das manifestações espirituais. Ele adverte que “o Espiritismo é uma ciência de observação e uma filosofia de consequências morais”, e que seu método baseia-se na universalidade e concordância dos ensinos dos Espíritos Superiores, evitando as conclusões precipitadas ou personalistas.

Na Revista Espírita, Kardec estudou dezenas de casos de aparições, inclusive coletivas, relatando que os Espíritos podem manifestar-se sob forma visível, tangível ou auditiva, conforme a natureza do perispírito e as condições fluídicas do ambiente. Em muitos desses registros, os Espíritos surgiam junto a pessoas em agonia ou em situações de forte ligação afetiva, semelhante ao que se verificou no caso de Ramsbury.

O Espiritismo, portanto, reconhece a realidade objetiva das aparições, mas as interpreta dentro de leis naturais — não como milagres, mas como fenômenos de ordem espiritual e fluídica.

2. A sobrevivência da alma e a comunicabilidade dos Espíritos

O princípio da imortalidade da alma é o eixo da Doutrina Espírita. Em O Livro dos Espíritos (questões 149 a 165), os Espíritos ensinam que a alma conserva sua individualidade após a morte e pode, em determinadas circunstâncias, comunicar-se com os encarnados.

Os fenômenos de aparição — visuais, auditivos ou mentais — são manifestações dessa comunicabilidade. Segundo Kardec, o Espírito, ao desejar manifestar-se, utiliza o fluido perispiritual e o fluido vital do médium ou do ambiente, produzindo uma forma perceptível aos sentidos humanos. Quando há mais de um observador, cada um percebe o fenômeno de maneira particular, o que explica as diferenças de descrição observadas em relatos como os de Ramsbury ou nos registros analisados por Hornell Hart.

Para o Espiritismo, esses fatos são naturais, sujeitos a leis que a ciência humana ainda está aprendendo a compreender, mas que já foram parcialmente descritas pela observação espírita.

3. Aparições com finalidade moral e afetiva

Muitos relatos — como o de Ramsbury ou o de Elaine Worrell — envolvem a presença de Espíritos junto a pessoas amadas ou em situações de sofrimento. Kardec, em O Céu e o Inferno (1865), explica que Espíritos afetuosos frequentemente se aproximam de entes queridos, especialmente quando estes enfrentam provações.

A aparição junto ao leito de uma viúva moribunda, por exemplo, pode ser interpretada como um gesto de amparo espiritual, e não como simples fenômeno óptico. Do mesmo modo, comunicações em sonhos ou visões — como no caso Chaffin — podem ocorrer para reparar uma injustiça ou orientar os encarnados, dentro dos limites da permissão divina.

Essas manifestações demonstram que o mundo espiritual não é alheio ao humano: é um mundo solidário e contínuo, onde o amor e a responsabilidade persistem além da morte.

4. O valor moral sobre o fenômeno

Embora o Espiritismo reconheça a legitimidade dos fatos, Allan Kardec advertiu contra o fascínio pelo fenômeno em si. Na Revista Espírita de novembro de 1864, ele observa que “os fenômenos são os meios de convencer, não o fim da Doutrina”. O verdadeiro progresso está na transformação moral, não na curiosidade experimental.

Por isso, casos como os da SPR são úteis como documentos históricos e científicos, mas o Espiritismo os insere em uma visão maior: a de que toda manifestação espiritual tem uma finalidade moral — consolar, instruir ou advertir —, e deve ser interpretada à luz do Evangelho e da razão.

Assim, o estudo dos fenômenos deve conduzir o homem à fé raciocinada, e não ao sensacionalismo.

Conclusão

Os relatos de aparições coletivas ou individuais, como os investigados pela Society for Psychical Research, não contradizem a Doutrina Espírita; ao contrário, confirmam, dentro dos limites da observação humana, os princípios codificados por Allan Kardec sobre a imortalidade e a comunicabilidade dos Espíritos.

Entretanto, o valor essencial desses fenômenos não está em sua espetacularidade, mas no ensinamento moral que deles se extrai: a certeza de que a vida continua, que os laços de afeto não se rompem e que todos estamos submetidos às mesmas leis divinas de amor, justiça e progresso.

A ciência pode registrar o fato; o Espiritismo, contudo, explica-lhe o sentido.

Referências

  • ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
  • ALLAN KARDEC. O Livro dos Médiuns. Paris, 1861.
  • ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno. Paris, 1865.
  • ALLAN KARDEC. Revista Espírita (1858–1869). Diversos volumes.
  • ALLAN KARDEC. A Gênese. Paris, 1868.
  • HART, Hornell. The Enigma of Survival: The Case for and Against a Future Life. New York, 1959.
  • Society for Psychical Research (SPR). Proceedings and Journal, 1882–2024.
  • TAYLOR, J. Ghost Sightings and Psychical Research: A Historical Overview. Cambridge, 2020.

 

ESPIRITISMO CODIFICADO OU PROGRESSISTA?
- A Era do Espírito -

Resumo

O presente artigo analisa a distinção entre o chamado Espiritismo codificado por Allan Kardec e o que alguns denominam “Espiritismo progressista”, à luz dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita. A partir da codificação e das orientações contidas na Revista Espírita (1858–1869), busca-se compreender até que ponto o progresso das ideias e o avanço da ciência se harmonizam com os fundamentos doutrinários, sem que se perca a coerência, a universalidade e a unidade do ensino dos Espíritos. O estudo propõe uma reflexão racional sobre o verdadeiro sentido de progresso dentro do Espiritismo, reafirmando a necessidade de fidelidade metodológica à codificação e de abertura à evolução moral e intelectual da Humanidade.

Introdução

Desde o surgimento do Espiritismo com O Livro dos Espíritos (1857), Allan Kardec deixou claro que a Doutrina Espírita é progressiva — isto é, acompanha o avanço do conhecimento humano sem se desviar de seus princípios fundamentais. Essa característica dinâmica, contudo, tem sido alvo de interpretações diversas. Em tempos recentes, surgiram correntes de pensamento que se autodenominam “espiritismo progressista”, propondo uma leitura mais aberta ou adaptada às demandas sociais contemporâneas.

A questão essencial, porém, não é escolher entre o Espiritismo “codificado” e o “progressista”, mas compreender se essa divisão tem sentido diante da natureza da própria Doutrina Espírita. Será o progresso doutrinário uma ampliação coerente com o método espírita, ou uma tentativa de reformulação influenciada por preferências ideológicas e tendências culturais?

1. A base científica e filosófica da codificação

Allan Kardec concebeu o Espiritismo como uma ciência de observação dos fenômenos espirituais, uma filosofia moral e religião no sentido filosófico — o laço que une o ser humano ao Criador. Sua metodologia fundamentava-se no controle universal do ensino dos Espíritos, critério que assegura a universalidade e impede que opiniões pessoais ou locais se transformem em doutrina.

Na Revista Espírita de abril de 1864, Kardec adverte que “não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”. Assim, o progresso é uma exigência natural da Doutrina, mas sempre dentro dos limites da razão e da moral universal, jamais de interpretações isoladas ou particulares.

Portanto, o chamado Espiritismo codificado não representa uma visão “tradicionalista”, mas a estrutura metodológica segura sobre a qual se sustenta a revelação progressiva das verdades espirituais.

2. A ideia de progresso segundo Kardec

Para a Doutrina Espírita, o progresso é uma lei divina (O Livro dos Espíritos, questão 776). Ele se manifesta em duas dimensões inseparáveis: o progresso intelectual, que amplia o entendimento humano sobre a natureza, e o progresso moral, que purifica os sentimentos e eleva a consciência.

Kardec afirma que o Espiritismo é progressivo “porque está apoiado nas leis da Natureza, e todas as leis da Natureza são imutáveis; mas a sua compreensão é que progride com o homem” (A Gênese, cap. I, item 55). Assim, a evolução doutrinária ocorre sem romper com seus fundamentos, mas aprofundando o entendimento das leis universais que já lhe servem de base.

3. O chamado Espiritismo progressista e suas propostas

A expressão “Espiritismo progressista” não designa uma nova codificação, mas uma tendência interpretativa. Seus defensores defendem maior abertura às questões contemporâneas — como diversidade, sustentabilidade e justiça social — buscando integrar o pensamento espírita às pautas humanitárias atuais.

Essa preocupação é legítima e compatível com os princípios de fraternidade, igualdade e caridade universal que formam a essência do Espiritismo. O risco, porém, está em substituir o conteúdo moral e filosófico da Doutrina por perspectivas ideológicas transitórias, desconectadas do método espírita de validação espiritual.

O verdadeiro progresso doutrinário não se expressa pela adoção de modismos, mas pela transformação íntima, pela prática do bem e pela vivência do amor ensinado por Jesus. O progresso sem base moral é mero adorno intelectual.

4. Unidade doutrinária e liberdade de pensamento

O Espiritismo não é uma doutrina dogmática. Allan Kardec sempre defendeu a liberdade de consciência e o livre exame das ideias. Todavia, liberdade não significa ausência de critério. A unidade doutrinária é o que garante a identidade do Espiritismo e o distingue de outras correntes espiritualistas.

Como afirmou o Codificador em Obras Póstumas, “a força do Espiritismo está na sua unidade moral e doutrinária”. Essa unidade não impede o debate, mas exige que toda ampliação de conceitos se mantenha coerente com os princípios fundamentais, sob o controle universal do ensino dos Espíritos Superiores.

Assim, qualquer proposta que se apresente como evolução ou progresso doutrinário somente será verdadeiramente espírita se respeitar os alicerces metodológicos e morais estabelecidos pela codificação.

Conclusão

O Espiritismo é, em sua essência, progressivo — não porque se adapta às modas do mundo, mas porque acompanha a evolução do Espírito humano rumo à perfeição moral. Allan Kardec não codificou uma doutrina estática, mas um corpo de princípios abertos à razão e à observação contínua.

Portanto, não há contradição entre Espiritismo codificado e Espiritismo progressivo, desde que se compreenda que o progresso deve ocorrer a partir da codificação, e não à revelia dela.

O verdadeiro espírita, como ensinou Kardec, “reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4).

Esse é o progresso que não envelhece com o tempo: o progresso do coração.

Referências

  • ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
  • ALLAN KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864.
  • ALLAN KARDEC. A Gênese. Paris, 1868.
  • ALLAN KARDEC. Obras Póstumas. Paris, 1890 (póstumo).
  • ALLAN KARDEC. Revista Espírita (1858–1869). Diversos volumes.
  • JOTA JOTA TÔRRES. “Espiritismo codificado por Allan Kardec ou progressista: escolha o melhor para você!”. Gazeta Kardec Já, julho de 2025.

 

AMOR FRATERNO ESCOLA DA ALMA E LEI DE SOLIDARIEDADE - A Era do Espírito - Introdução Entre as narrativas antigas que atravessam os séculos...